Conheça a Tiquatira

Esteira de triagem. Foto: Thiago Mucci

Tiquatira: a cooperativa em transformação

03/08/2018

Imagem - Coleta de materiais. Foto: Thiago Mucci

Coleta de materiais. Foto: Thiago Mucci

A Cooperativa Tiquatira carrega o nome da comunidade que lhe deu origem, mas já passou por vários endereços antes de se estabelecer na vila Curuçá Velha, na zona Leste da capital. “Passamos por vários contratempos, mas sempre nos mantivemos firmes e carregamos o nome”, diz a presidente Andrea da Cruz Pereira.

A história da entidade se confunde com as vidas de Andrea e do marido, Diógenes da Silva, o Lafont. Membro da comunidade do Tiquatira, Lafont começou a coletar resíduos nas ruas aos 7 anos.

“Comecei a coletar para jogar fliperama e, na adolescência, para comprar tênis”, lembra Lafont, hoje com 42, fundador e primeiro presidente da cooperativa. “Nos casamos quando eu tinha 17 anos. Desde então, a reciclagem passou a sustentar a família.”

Lafont era um carroceiro à moda antiga. Preferiu o trabalho pesado, ao invés de entrar para a vida do crime – opção não seguida por muitos de seus conhecidos, alguns mortos no decorrer dos anos.

“Tive várias oportunidades de ir para o outro lado, mas nunca tive essa índole”.

A necessidade de sustentar honestamente a família foi agregada a uma visão empreendedora. Ao lado de Andrea, decidiu alugar um terreno na comunidade Tiquatira para montar uma espécie de ferro-velho. Era uma empresa informal, que chegou a empregar mais de 50 pessoas.

A ideia do cooperativismo surgiria depois, no início de 2000, com incentivos da Prefeitura. E seria formalizada em 2008, com o registro dos documentos da entidade.

Durante esse período, no entanto, surgiu um problema em outra entidade, a Cooperativa da Vila Maria. “Os materiais começaram a se acumular, as pessoas não estavam sendo pagas e a Prefeitura pediu que eu assumisse para resolver a situação”, explica Lafont.

Depois de alguns meses como presidente interino, ele pôs a casa em ordem. “Mas a antiga gestão voltou, pôs tudo a perder e a cooperativa foi dissolvida.”

O resultado foi a primeira mudança de endereço. “Passamos a ocupar o galpão da Vila Maria, que fica na Zona Oeste, do outro lado da cidade, mas levando o nome da Tiquatira.”

Imagem - Cooperada separando os materiais. Foto: Thiago Mucci

Cooperada separando os materiais. Foto: Thiago Mucci

Dois anos depois, o galpão teria que ser novamente abandonado para a construção de um Centro de Educação Unificado (CEU), que até hoje não saiu do papel. “Mudamos para a Avenida Salim Farah Maluf (zona Leste), onde hoje está a Cooperativa Tietê, e ficamos lá até conseguirmos este galpão onde estamos hoje.”

Um dado que chama a atenção é que a Tiquatira nunca deixou a peteca cair em termos financeiros ou de geração de renda - mesmo passando por mudanças e ocupando hoje um prédio alugado pela Prefeitura - e que tem condições estruturais precárias (há infiltrações de água quando chove, por exemplo).

A cooperativa também não perdeu parceiros empresariais. “Mantivemos os parceiros e até ampliamos.” A produção não sofreu também grandes alterações, apesar do volume mensal de resíduos ter caído de 180 toneladas para 120 mensais, por conta da crise.

Cada um dos 21 cooperados da associação obtém renda bruta de R$ 1.100 para processar e revender as 120 toneladas em um mês. Neste rol, estão incluídos plásticos, metais, papéis e papelões, restos de eletrodomésticos e vidro.

“Deste total, de 60 a 70 toneladas são captação nossa, que coletamos com nossos dois caminhões e com as 12 caçambas que deixamos espalhadas nas empresas parceiras”, explica Lafont.

O restante é proveniente da coleta seletiva realizada pela Ecourbis – uma das concessionárias da limpeza urbana da capital. 

É preciso mais renda, com menos burocracia

Apesar do salário estar dentro da média das cooperativas visitadas pelo Recicla Sampa, a direção da Tiquatira acha pouco. “O digno seria nós termos salários de R$ 2.500, R$ 3 mil.”

Para Lafont, que defende um modelo em que as cooperativas sejam menos dependentes do poder público, alguns entraves burocráticos impostos por órgãos municipais e estaduais ainda são empecilhos.

“Eu preciso de licença de transporte para poder coletar recicláveis num shopping, por exemplo. O custo para a coleta seria mais barato do que cobram as empresas privadas do setor e isso aumentaria nossa renda”, explica.

O raciocínio de Lafont é simples. Sem os entraves, alguns nichos de mercado, ainda restritos a poucas empresas, seriam abertos à participação das cooperativas. Com isso, o volume de recicláveis coletados, processados e revendidos aumentaria, e por consequência, ampliaria a renda dos cooperados.

“É possível ter independência, mas não dá para enfrentar esta burocracia inexplicável para ter uma licença ambiental ou de transporte. É só me explicar o modelo a que tenho que me adequar, que fazemos”, diz o fundador.

Na visão da direção da Tiquatira, as cooperativas deveriam ter preferência no atendimento de demandas privadas e públicas por terem um papel de inserção social. “Aqui nós recebemos ex-presidiários e pessoas que não teriam onde trabalhar”, explica Lafont, descrevendo um cenário muito comum dentre as entidades que reciclam resíduos.

“Eu costumo dizer que, se as cooperativas fecharem, mais presídios terão que ser construídos.”

A frase é forte, mas Lafont frisa que sua análise é de uma realidade que ele sentiu na própria pele. Apesar de ter conseguido vencer pela reciclagem – ele tem casa própria e a filha mais velha está se formando em Enfermagem – Lafont é personagem de uma história que poderia ter dado muito errado.

Imagem - Foto: Thiago Mucci

Foto: Thiago Mucci

A começar pelas fugas constantes da escola, da vida pobre e das tentações do crime, que ele recusou por não ter vocação. A capacidade de superar essas dificuldades não é uma exceção no mundo das cooperativas, mas sobram histórias de pessoas que hoje tentam recomeçar após terem derrapado na ilegalidade.

Na Tiquatira, a angolana Jailce (nome fictício) é o melhor exemplo. Com mais de 50 anos, ela foi presa com alguns pacotes de cocaína ao tentar embarcar com a droga para a África. Ficou dois anos e meio presa e, ao sair, acabou indo parar na cooperativa.

Lá, encontrou uma família e virou uma espécie de mascote dos cooperados, dos quais a maioria composta por mulheres. “Eles me xingam, mas eu adoro estar aqui”, brinca Jailce, num português ainda carregado de sotaque angolano. “Ela dá muito trabalho e é mimada”, diz uma colega. Jailce voltou a estudar, aprendeu a ler e escrever e não quer saber de voltar para a África.

“Isso aqui é minha família.”

A Cooperativa Tiquatira fica na Rua Cembira, 1.100 – Vila Curuça.

Telefone: (11) 2495-0975 / (11) 94566-3826

Materiais reciclados: papel, plásticos (todos), vidros, metais comuns, papelão e restos de eletrodomésticos.

Tags: entrevistas, reportagens
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