Recicla entrevista: Ednilson Viana, professor da USP

Trator em terreno. Foto: kaband / Shutterstock.com

Lixo pode ser combustível para a economia, aponta pesquisador

23/03/2018

Imagem - Lixo reciclável amontoado em terreno. Foto: Mohamed Abdulraheem/Shutterstock.com

Lixo reciclável amontoado em terreno. Foto: Mohamed Abdulraheem/Shutterstock.com

Enquanto você lê esse texto, toneladas de lixo estão sendo produzidas em diversas partes do mundo. Uma quantidade que aumenta ao longo dos anos e cujos processos de manejo e gerenciamento devem ser repensados rapidamente. A análise é de Ednilson Viana, professor da USP e pós-doutorado em saneamento pela Engenharia Civil da Universidade Federal de São Carlos. “Se a gente não olhar para os resíduos com o devido cuidado, pensando na disposição, nos mecanismos de redução e na coleta seletiva, podemos ter situações críticas”, avalia.

Para o especialista, a falta de recursos por parte dos municípios não pode ser um fator impeditivo para os avanços na área. É preciso se valer de “criatividade e boa vontade” para implantar políticas públicas que observem a cadeia completa e envolva a população no processo. Não apenas por meio de campanhas educativas, mas mostrando como, na prática, a mudança de atitude pode ser benéfica. “A pessoa precisa ver o resultado daquilo que está fazendo. Ver que separar o lixo dá resultado”.

Graduado em Biologia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e com pós-doutorado em Portugal e nos Estados Unidos, o pesquisador aposta na tecnologia para transformar o lixo em fonte geradora de energia, transformando o problema em combustível para a economia.

Ednilson Viana falou ao Recicla Sampa. Confira a entrevista na íntegra, a seguir:

De que forma o senhor acredita ser possível repensar o atual sistema de coleta seletiva?

Precisamos olhar para as falhas e repensar o sistema. Uma das coisas que deve ser revista é o modelo de atuação junto à comunidade. É preciso fazer um levantamento e utilizar indicadores para identificar exatamente o que acontece em cada região. Podemos pensar na coleta seletiva e em todas as suas etapas. Nas residências, precisamos melhorar o processo de segregação dos resíduos, para que esse material chegue na central mecanizada ou na cooperativa com uma qualidade melhor. E estabelecer mecanismos para que as pessoas segreguem mais e participem mais, levando em conta as características locais.

É importante trabalhar com as escolas e tentar uma maior aproximação da população. Mas não basta ter uma campanha para a população se você não disponibiliza a coleta seletiva naquela região. É preciso ampliar a disponibilidade da coleta nos bairros.

Sobre a etapa da própria coleta em si, é preciso aumentar a quantidade de materiais que podem ser coletados. Seria interessante pensarmos cada vez mais em Pontos de Entrega Voluntários (PEVs) que aceitassem uma gama maior de materiais, como eletrônicos, por exemplo. E ampliar a quantidade deles na cidade.

No ciclo da coleta, se coletarmos mais materiais, o sistema de transporte também deverá ser repensado e ampliado. Depois disso, a triagem. Precisamos pensar que a capacidade das nossas centrais está ociosa: das 250 toneladas recolhidas por dia, elas processam 80, porque não separam tudo. E tem a questão das cooperativas, é preciso que sejam fortalecidas e capacitadas.

Se a gente conseguir separar todo o material reciclável da cidade de São Paulo, estouramos a capacidade das cooperativas e das nossas centrais. Se repensarmos todo o processo, teremos de garantir o aproveitamento máximo de resíduos nas esteiras das centrais mecanizadas, separando também vidro, por exemplo.

O que o senhor acha que falta para que a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída em 2010, seja 100% colocada em prática?

Quando falamos na PNRS, estamos falando de algo muito amplo. Podemos falar de disposição dos resíduos, substituição de lixões por aterros sanitários, logística reversa (comerciantes sendo obrigados a darem uma destinação ambientalmente correta dos produtos que fabricam), acordos setoriais.

Há uma dificuldade na Política Nacional que é a responsabilidade compartilhada. Se a gente tivesse a responsabilidade estendida ao produtor seria mais fácil lidar com a gestão dos resíduos. Para que a PNRS de fato exista, quem produz os resíduos deveria ter mais responsabilidade e consciência do ciclo de vida do produto. Antes de colocar determinada embalagem no mercado, os fabricantes deveriam pensar se ela é reciclável, se é fácil de ser coletada, como será a degradação dessa matéria-prima se ela ficar em contato com o solo. A PNRS também deve ter instrumentos mais rigorosos. Não podemos deixar para depois uma situação tão urgente.

"Se a gente tivesse a responsabilidade estendida ao produtor seria mais fácil lidar com a gestão dos resíduos".

 

Em 2015, o senhor chegou a comparar a questão do lixo com a crise hídrica que o país enfrentou na época, falando de uma possível “crise dos resíduos sólidos”. Acha que ela realmente pode acontecer? Qual a melhor forma de preveni-la?

O que eu quis dizer foi que a crise hídrica é resultado de uma série de sinais anteriores que foram ignorados. Se a gente não olhar para os resíduos com o devido cuidado, pensando na disposição, nos mecanismos de redução e na coleta seletiva, podemos ter situações críticas.

Por exemplo, se a gente deixa de lado a preocupação com a disposição dos resíduos, em desviá-los dos aterros, em algum momento não teremos mais aterros para descartar esses resíduos, principalmente nos grandes centros. A melhor forma de prevenir essas situações é repensar o atual sistema de coleta seletiva na cidade.

 

 “A pessoa precisa ver o resultado daquilo que está fazendo, da sua separação dos resíduos”

 

São Paulo conseguiu cumprir a meta do fim dos lixões, mas sabemos que isso não aconteceu no país todo. A que o senhor atribui o caso de sucesso da cidade e como os outros municípios podem resolver a questão?

São Paulo já vem atuando nesse sentindo de mudança de lixões para aterros há bastante tempo. A CETESB - Companhia Ambiental do Estado de São Paulo teve um papel importante. Existe até um índice que mede a qualidade dos aterros sanitários. E há vários programas que vêm acontecendo no sentindo de tentar mudar essa realidade.

É possível estabelecer políticas públicas e viabilizar essa mudança da construção de lixão para aterro sanitário. São Paulo tem um panorama um pouco diferenciado, que vem de muito tempo. E tem que pensar que não é só a questão da substituição dos lixões por aterros, né? A gente tem a questão dos panoramas e dos materiais ali. A política de resíduos no estado de São Paulo começou antes. Quando você tem uma política estadual estabelecida, tem também uma cobrança para que consiga mudar de um patamar para outro.

E como os outros municípios podem resolver o problema?

Em primeiro lugar, eu acho que eles precisam de uma avaliação efetiva e real de qual é a situação para cada município. Se a gente falar que é uma questão econômica é fácil, né? Porque a questão econômica se aplica a todo mundo, mas acho que é mais uma questão de repensar suas condições locais. Falta projeto? Falta equipe técnica qualificada? O que está faltando de fato? Acho que precisa de um panorama bastante honesto da realidade de cada local.

É preciso estabelecer quais são os fatores críticos para cada região e, a partir de então, tentar desenvolver políticas públicas com a comunidade, com o setor técnico, com as universidades, para tentar auxiliar. Eu acho que esse é o caminho para que a gente consiga vencer essas dificuldades. Não existe uma receita única.

O lixo orgânico também pode ser reciclado e transformado em adubo e até mesmo em energia. O senhor desenvolve trabalhos que valorizam os resíduos orgânicos com foco na produção de energia. Como acha que São Paulo poderia implementar o processo em seu ciclo de reciclagem?

São Paulo já tem algumas iniciativas em pequena e grande escala. O fato é o seguinte: eu penso que São Paulo, ou qualquer outro centro urbano, se quiser valorizar os orgânicos, seja pela compostagem, seja pelo biodigestor, seja utilizando também o biogás, tem que trabalhar com essa proposta de variabilidade. Tem que trabalhar com essa proposta de cardápio de tecnologias voltadas para uma realidade específica das fontes geradoras. Porque uma coisa é eu pensar num grande gerador, um supermercado, por exemplo.  E outra coisa é eu falar de residência.

Tem um supermercado em Santa Catarina, por exemplo, que tem um programa chamado “Lixo Zero”, contratado por uma empresa aqui de São Paulo que trabalha na área, a Eccaplan. Com esse programa, o supermercado conseguiu separar com qualidade os orgânicos gerados no supermercado: tem uma área que faz a compostagem e outra que associa a horta urbana. Ele faz a horta, produz os produtos com qualidade e eles voltam para a prateleira, produtos orgânicos. É preciso um programa que realmente mostre para a população, para as fontes geradoras de São Paulo, todo esse conjunto de possibilidades. E que realmente cobre deles que esse processo seja feito. Tem que estudar o processo.

Mas essas tecnologias não são custosas?

Depende do que você chama de custoso. Por exemplo, quando você pega uma cidade como São Paulo, se pensarmos numa tecnologia como a de digestão anaeróbia (conjunto de processos em que os microrganismos degradam a matéria orgânica na ausência de gás oxigênio) em grande escala, ela tem um custo maior porque a compostagem é de escala aberta.

A coleta e transporte têm um custo elevado, a disposição do resíduo tem um custo elevado. Tem que fazer a conta de quanto custa para coletar esse resíduo, levar para o aterro e quanto custa pegar esse resíduo e mandar para uma tecnologia de valorização mesmo que seja mais cara, como a de gestão anaeróbia que vai produzir gás de cozinha ou energia elétrica.

A pessoa precisa ver o resultado daquilo que está fazendo. Ver que separar o lixo dá resultado. Antes tinha aquela cultura educativa de que se você der um retorno, estará criando um vício, mas não é assim. Se você retorna um gás de cozinha, um composto, uma alface, é diferente. Então a pessoa precisa associar, dentro do possível, também a questão da horta urbana. Se ela faz compostagem, se ela faz digestão anaeróbia, ela terá um material que vai usar. Ela pode fazer horta no muro, na sacada, e ela tem um retorno daquilo, ela visualiza a reciclagem.

A energia que vem do lixo não é uma realidade brasileira, mas é possível mensurarmos suas vantagens?

São muitas. Quando a gente fala em energia gerada pelos resíduos, dos orgânicos, por exemplo, a importância seria enorme. O custo da nossa energia elétrica é alto, então se você tem o abatimento nesse custo com resíduo, algo que era um estorvo, que você ia ter que pagar para colocar num lugar e que ia levar 10, 15 anos para se degradar ou muito mais, o material passará a gerar um benefício para a população. O retorno é muito grande.

Quando você gera a energia pelo resíduo orgânico, além de evitar custos (transporte e destino desses resíduos) também minimiza os impactos ambientais, porque tem muito lixo em aterro irregular, inadequado. A gente tem que pensar também que há um apelo educativo muito forte.

Grande parte da população entende a reciclagem dos resíduos secos, mas não sabe que o lixo orgânico também é reciclável, com a criação, por exemplo, de composteiras (estruturas próprias para o depósito e processamento do material orgânico) caseiras. Na avaliação do senhor, como esse tema poderia ser melhor abordado?

Mostrando a informação clara para a população e fazendo muita divulgação. Compostagem e minhocário (fazenda de minhocas que ajuda a reciclar os restos de comida e transformar o substrato em húmus) você pode, por exemplo, fazer em muitos lugares. É lógico que ele não aceita todo tipo de resíduos, mas ele é muito importante. Então, é importante falar sobre isso mostrando para as pessoas que há muitas possibilidades de reciclagem.

Para o senhor, se o Brasil tivesse de tomar por base um local, país ou cidade que tem implementado processos eficientes para lidar com o lixo, qual seria?

Fora do país, a realidade é outra. Por exemplo, Boras, na Suécia, é uma cidade que manda para o aterro apenas 1% dos resíduos. Só que qual é a diferença? A diferença é que lá é um país frio, e eles tentam retirar dos resíduos a maior parte de energia possível. Eles remetem ao processo de valorização energética de uma grande quantidade de resíduos. Queimam, mas trabalham também em produção de biogás, para os ônibus, para os veículos, etc. Eles buscam todas as alternativas. Esse é um lugar interessante para se olhar. O fato é que é possível, com criatividade e boa vontade a gente consegue avançar muito na gestão ambiental, mas precisa de seriedade. Precisa querer fazer.

“Com boa vontade e criatividade, a gente consegue avançar muito na gestão ambiental. Mas precisa de seriedade”

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