Conheça a Nova Esperança

A cooperativa que nasceu da urbanização da favela Pantanal

18/07/2018

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Um projeto desenvolvido pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), do Governo do Estado de São Paulo, para reurbanizar a Vila Pantanal acabou fazendo com que um grupo de catadores se juntasse numa cooperativa de reciclagem.

Foi assim que há 11 anos nascia a Cooperativa Nova Esperança. “Havia catadores na comunidade, que na época era uma favela com barracos e ruas de terra e lama”, diz David Almeida Barreto, de 58 anos, um dos fundadores da entidade.

“Todos trabalhavam isoladamente, até que o pessoal da CDHU nos sugeriu formar uma cooperativa para que pudéssemos gerar renda.”

Iniciado no final dos anos 90, o projeto Pantanal foi um dos maiores investimentos em habitação da América Latina. No total, beneficiou mais de 8 mil famílias que moram numa área de várzea do Rio Tietê, na zona leste paulistana. “Tudo enchia de lama até a urbanização”, lembra David. “Hoje, avançamos bastante e temos este galpão, que foi construído pela CDHU.”

David, que morava num dos barracos substituídos por apartamentos da CDHU, nem sonhava em trabalhar com reciclagem antes das mudanças. “Eu trabalhava no mercado do Parque Dom Pedro, mas apareceu esta oportunidade e agarrei.”

David já foi presidente da cooperativa e hoje é um de seus 22 membros – a entidade já chegou a ter mais de 30, mas hoje vive uma crise decorrente de ações trabalhistas. “Nosso advogado abandonou as ações e estamos com uma dívida de R$ 20 mil, o que reduziu o ganho mensal de R$ 1.500 para menos de um salário mínimo.”

Na prática, o passivo fez com que alguns cooperados saíssem, por conta do aumento dos custos e da diminuição das remunerações (em cooperativas, os cooperados ganham o rateio do que sobra após o pagamento das despesas). De cerca de 35 membros, sobraram os 22. “Estamos tentando fechar um acordo com a última pessoa (que ingressou na Justiça) para acabar com esta crise e voltar a operar normalmente.”

Com crise, sem desânimo

O curioso é que, para quem ficou, a crise não é motivo de desânimo. Os remanescentes, quase todos oriundos da antiga favela do Pantanal, pegam no pesado para processar 60 toneladas por mês de resíduos sólidos – a capacidade, no passado, chegou a superar os 100 mil quilos.

“Aqui todos temos que trabalhar”, diz a presidente da cooperativa Edna Maria Rodrigues, de 38 anos, quem a reportagem do Recicla Sampa conferiu separando resíduos já na chegada ao local.

Mãe de três filhos, que começou na reciclagem após uma carreira de quase duas décadas trabalhando em feiras e eventos.

“Gosto daqui por que fiz amigos e estamos fazendo com que este material seja reaproveitado, não poluindo o meio ambiente nem provocando enchentes.”

As histórias dos cooperados são de superação. Como nas demais cooperativas visitadas, a Nova Esperança emprega pessoas que dificilmente teriam oportunidade no mercado de trabalho.

A própria Edna passou por maus bocados antes de ir para a reciclagem. Mãe aos 16 anos, teve que trabalhar cedo. Casou-se, teve mais dois filhos e ainda jovem ficou viúva. “Assassinaram meu marido por engano”, diz ela, referindo-se a um tempo em que a Pantanal era um dos pontos violentos da capital.

Edna se casou de novo e teve que trabalhar para ajudar nas contas de casa. Quando se viu sem emprego, há cerca de quatro anos, pintou a chance de virar cooperada. E ela aproveitou.

A maioria dos membros da Nova Esperança é formada de mulheres que ajudam no sustento de casa. Trabalham todos e todas num galpão, das 8 às 17 horas, ao som de música alta. “Para alegrar o ambiente”, diz uma cooperada.

Imagem - David Almeida Barreto, um dos fundadores da entidade. Foto: Thiago Mucci

David Almeida Barreto, um dos fundadores da entidade. Foto: Thiago Mucci

A Nova Esperança ainda não conta com esteira mecânica – a separação é feita em uma mesa de concreto. E depende do material enviado pela Ecourbis – concessionária de limpeza urbana que atua na zona leste. “Das 60 toneladas, conseguimos umas 15 de parceiros, como o shopping de Higienópolis. O resto vem da coleta seletiva”, explica David.

A Cooperativa tem um ambiente alegre. E apesar da vida dura e do dinheiro curto dos últimos tempos, a maioria dos catadores sorri para quem não os conhece. Algo raro em outras entidades, geralmente composta por pessoas simples e tímidas.

Talvez o início da cooperativa ajude a explicar o clima alegre. “No começo, saíamos de carroça para coletar o lixo nas ruas da região, até que conseguimos um caminhão e aumentamos, em seis meses, a produção de 3 mil para 20 mil quilos”, lembra David.

A virada daquela época, ele e Edna querem ver repetidos agora, após a superação das pendengas trabalhistas. Na Nova Esperança, curiosamente, a esperança é capital valioso e parece sempre renovada. “Não podemos desanimar”, diz o ex-presidente.

A cooperativa Nova Esperança Pantanal está localizada na Rua Japichuá, 311 – Jardim Matarazzo

Telefone: (11) 2214-2350

Materiais reciclados: papel, plásticos (todos), vidros, metais comuns e papelão.

Tags: entrevistas, reportagens
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