Recicla Sampa - Arte Transformadora
Recicla Sampa
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Arte Transformadora

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Utilizar materiais recicláveis em cenários de filme já é uma realidade na sétima arte. Foi o que aconteceu no longa-metragem brasileiro “Era o Hotel Cambridge”, da diretora Eliane Caffé. O filme fala sobre refugiados que chegaram ao Brasil e dividem espaço com sem-tetos na Ocupação 9 de Julho, no caso o Hotel Cambridge.

A ideia de utilizar peças recicladas foi da diretora de arte, Carla Caffe. Por meio da Escola da Cidade, associação de profissionais de arquitetura e urbanismo, Carla e o arquiteto Luis Felipe Abbud montaram uma marcenaria dentro da ocupação. “Os próprios moradores fizeram os móveis para eles e que também serviram de cenário para o longa”, explica.

“Aprendi por necessidade a fazer um grande aproveitamento do que as pessoas jogam fora”, conta a moradora da Ocupação 9 de Julho, Carmem Silva, que faz parte da liderança do MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) e também foi aluna do projeto de marcenaria.

Ela conta que com a marcenaria os moradores não fazem apenas o “shopping rua”, termo usado para pegar os materiais do espaço público e decorar a casa. A baiana conta que o que não dá para reaproveitar é possível criar.

A líder que trocou Salvador por São Paulo explica que a cultura de reutilizar e reciclar começou primeiro pela falta de dinheiro. Hoje, ela ressalta que reciclar não é moda, é importante para o planeta e também para a sobrevivência.

Abre a porta e a janela

Assim como o trecho da música de Os Novos Baianos, o filme foi uma oportunidade de mostrar e desmistificar como vivem os moradores da Ocupação. A diretora de arte, Carla Caffé, diz que abrir as portas e as janelas do edifício não foi uma tarefa fácil. “A cultura da ocupação tem a cultura de fechar tudo para não se expor”, conta. O filme foi até uma oportunidade de mostrar que a reciclagem fazia parte do cotidiano.

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Reciclagem em todas as áreas

Quebrar o preconceito da reciclagem. Também foi esse o objetivo da diretora de arte. Ela explica que o que começou como necessidade, hoje se transformou em um ato de conscientização para os moradores. Esse entendimento sobre redução do lixo é uma das questões que mais permeiam na produção de qualquer filme. “A questão da reciclagem ainda está muito presa no campo do design. Sinto que a sociedade ainda está se acostumando com essa ideia de trabalhar com os resíduos, principalmente no cinema”, explica Carla.

De acordo com a profissional, é possível introduzir a cultura da reciclagem em todas as áreas. Exemplo disso, ela compartilha uma experiência que teve com outro filme “Narradores de Javé”, em que também atuou na cenografia. Para se ter uma ideia, a cidade era tão pequena que eles não tinham chaves para fechar as portas, assim como também não tinham coleta de lixo. Então, Carla mobilizou a produção do filme para recolher o lixo dos moradores da cidade, estabelecendo horários e pontos de coleta.

Lixo que é rico 

“Esse tipo de projeto faz a gente olhar com mais carinho para o uso das coisas. Como arquiteto, é muito chocante ver que eventos e exposições utilizam muitos materiais e depois eles já vão para o lixo”, desabafa o professor de arquitetura da Escola da Cidade e também um dos responsáveis pela cenografia do longa-metragem, Luis Felipe Abbud. Ele ressalta mais uma vez que a vida dos moradores do prédio é lidar com a reutilização do lixo o tempo todo.

Abbud conta que os objetos reciclados para compor o cenário do prédio foram escolhidos com muito zelo para valorizar o hotel de luxo que a ocupação já foi um dia. A própria estrutura do hotel já ajudou nessa “ressignificação” devido a suas áreas comuns, como o salão de jogos, restaurante e outros locais. Para compor o cenário, a equipe e os moradores fizeram o “shopping rua” e recolheram os materiais.

“O lixo das caçambas de São Paulo é riquíssimo e isso até nos faz pensar o quanto somos consumistas”, diz.

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Bancos feitos de pneu pelos moradores do edifício Cambridge. Foto: Recicla Sampa

Colocar os materiais na balança

A quantidade de lixo jogado fora rapidamente foi o que também chamou a atenção do diretor de arte e cenógrafo, Fabian Alonso. O diretor vem de uma geração de profissionais que aprendeu a reutilizar os recursos de cenário devido ao baixo orçamento. Alonso acha que a reciclagem é mais importante para gerar consciência e educação sobre o lixo. Ele acredita que dificilmente se faz reciclagem, pois o que a sociedade faz hoje é reutilização. “Às vezes, a reutilização não tem um resultado positivo, pois se mistura madeira com ferro, por exemplo, fica muito mais difícil reciclar”, conta.

Nem sempre o reciclável causa o menor impacto. Ao planejar um cenário, uma exposição, um festival ou uma manifestação cultural é preciso colocar na ponta do lápis. Deve-se levar em conta as seguintes questões: quanto tempo a ação ficará exposta; qual o impacto de cada material no meio ambiente; calcular se vale a pena colocar prego ou fita adesiva, por exemplo. De acordo com Alonso, o diretor de arte pode gastar muitos materiais de maneira desnecessária ao reutilizar ou querer reciclar algo.

“Temos que nos questionar. O quanto de solvente usarei para reutilizar um material? O quanto de água vou gastar para limpar uma peça usada? Tem que colocar na balança e ver se vale a pena”, explica.

E quando vale a pena? O profissional conta que já teve experiência com a reutilização de materiais. Foi o caso do Sesc Vila Mariana, no qual ele fez uma proposta de ambiente com tambores. Depois que a acabou a intervenção, Alonso realocou os tambores no Teatro de Contêineres, na Cracolândia, no centro de São Paulo.

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Reciclagem na arte

Adepta de um estilo de vida sustentável, a designer e cenógrafa, Nani Brisque sempre procura aliar reaproveitamento e reciclagem em seu trabalho. Tanto que já teve obras expostas em Portugal e no Brasil. Exemplares de seres em vias de extinção foram representados em esculturas de sucata como um “grito de emergência”. “Fiquei chocada quando assisti ao documentário Midway e descobri que aves morrem engasgadas com pequenos lixos do mar”, conta.

A artista deixa claro que usar peças recicláveis em suas obras não é uma questão de boicote ao comércio e à economia. Nani explica que não deixa de comprar materiais, mas procura fazê-lo junto a catadores e cooperativas locais. “Na arte, ainda existe o aspecto da manifestação contra o desperdício, mas já existe uma onda de artistas que usam a sucata mesmo como material de trabalho”, explica Nani.

Como um case interessante, ela relembra de um cenário que simulava um “barraco” de favela. “Fizemos com madeiras velhas, madeirite, recortes de compensado, porém, ao montarmos, utilizamos pregos novos. A arte tem facilidade de adequar o reciclável com o novo, mas não é papel somente dela, qualquer cidadão pode introduzir conceitos de economia e sustentabilidade no dia a dia”, conta.

Nani tem 25 anos de experiência em cenografia e em todos os seus processos de trabalho, o primeiro passo antes de começar é avaliar todos os recursos materiais disponíveis e reutilizáveis.

“Faço isso na vida pessoal também. No dia a dia, faço questão de juntar os lixos miúdos, pois penso nas aves que confundem essas miudezas no oceano, as ingerem e morrem”, desabafa.

Em uma parceria com amigos, Nani faz ecobricks, onde pequenos lixos são colocados dentro de uma garrafa pet e compactados com uma colher de pau. “Essa garrafinha maciça repleta de um conteúdo seco se torna o recheio de tijolo de barro e é literalmente enterrada em paredes de construção”, explica.

Conscientização na Arte

Gerar consciência na produção de um filme. Ariene Ferreira, produtora executiva que atua no mercado audiovisual com projetos de ficção e documentários como Tropicália, O Piano que Conversa, Insustentáveis, Bicho de Sete Cabeças, Terra Vermelha, sempre gostou de aliar o meio ambiente em sua vida pessoal e pensou: “Por que não unir a causa com a profissão?”. Foi daí que surgiu a ideia do Cinema Verde. Na iniciativa, a profissional da sétima arte dá consultoria para as produções audiovisuais com a missão de apoiar a mudança em relação ao consumo, inspirando o “reeducar-se ambientalmente”.

“O mercado ainda tem dificuldades em incorporar estas ações, mas aos poucos estamos realizando a consultoria em alguns projetos em São Paulo. Em 2017 fizemos a primeira série de ficção na Chapada dos Guimarães – MT: Insustentáveis, uma comédia que tem como pano de fundo a sustentabilidade”, conta. Ariene explica que a produção também fez sua parte colaborando com a menor geração de resíduos e conseguiu reduzir o próprio lixo no cotidiano, além da reutilização de materiais na direção de arte.

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Teatro de contêiner Mungunzá. Foto: Recicla Sampa

Sem reciclagem no trabalho e sustentável na vida

“Sou radicalmente a favor da reciclagem, mas na minha arte não uso material reciclado, que já foi usado. Utilizo matéria nova, aço Corten, que é anticorrosivo, na maioria de minhas esculturas. Ele é perene e se o comprador quiser um dia reciclar, é 100% reciclável”, conta o artista plástico Chico Niedzielski, que tem peças adquiridas pelo Sesc, Senac, Hospital Albert Einstein e diversos espaços culturais da cidade.

O artista acredita que se chegou a um tal grau de exploração do planeta que nada mais é sustentável. Porém, antagonicamente, ele garante que na vida pessoal procura ser sustentável.

“Não jogo fora nenhum lixo orgânico, exceto alimentos já elaborados, pois aproveito tudo e coloco em minha composteira e também serve de comida para pacas e capivaras que moram próximo ao meu sítio”, conta.

Niedzielski complementa que plásticos, metais, baterias, tecidos e outros materiais recicláveis vão para uma cooperativa de catadores que ele colabora.

OCUPAÇÃO 9 DE JULHO - EDIFÍCIO HOTEL CAMBRIDGE EM NÚMEROS

O prédio tem 15 pavimentos e 241 quartos

Foi inaugurado em 1951

Fechou as portas em 2002

Foi ocupado pelo MSTC em novembro de 2012

Depois da ocupação, foram removidas 15 toneladas de lixo


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