Recicla entrevista: Gleysson Machado, especialista em tratamento de água e esgoto

Estação de reciclagem de plásticos. Foto: Albert Karimov/shutterstock.com

Brasil precisa aprender a rentabilizar o lixo

11/05/2018

Imagem - Gleysson Machado avalia ser importante investir em qualificação técnica para consultorias. Foto: Acervo pessoal

Gleysson Machado avalia ser importante investir em qualificação técnica para consultorias. Foto: Acervo pessoal

Gleysson Machado é mestre em Engenharia Química pela Universidade de Ciências Aplicadas de Frankfurt, na Alemanha, onde vive há mais de 17 anos. Além de vasto conhecimento em energias renováveis e resíduos sólidos, o especialista em tratamento de água e esgoto traça paralelos entre a realidade brasileira e soluções de sucesso implantadas na Europa e dispara: “não há necessidade de se reinventar a roda”.

Machado explica que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) é baseada na lei alemã e defende que é necessário que o Brasil inove em busca de soluções a fim de se equiparar a países que têm conseguido rentabilizar os resíduos. “Nosso grande desafio é vencer a barreira da informação qualificada para que se aprenda a fazer negócios e não mais dizer que não há recursos para o setor”, diz.

Para isso, avalia ser extremamente importante investir em qualificação técnica para consultorias se quisermos tirar a PNRS do papel. “Deixar o desenvolvimento deste setor somente nas mãos do poder público condena todos ao fracasso. Nós, do setor privado, temos uma responsabilidade grande aqui”, afirma.

Confira a entrevista na íntegra:

A Alemanha é o país que mais recicla no mundo todo. O Brasil, por sua vez, recicla apenas 13% dos resíduos urbanos (de acordo com pesquisa de 2017 do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Quais os maiores contrastes entre os dois países na forma como tratam o lixo?

Acredito que existe uma causa maior que acaba desencadeando uma série de outras: a competência para o setor de resíduos. Na Alemanha, as tecnologias e modelos de negócios para o setor de resíduos são conhecidas e estimuladas. O setor público não precisou investir em tudo, ao contrário do que se pensa. Nosso grande desafio no Brasil é vencer a barreira da informação qualificada para que se aprenda a fazer negócios e não mais dizer que não há recursos para o setor. 

Quais políticas já realizadas na Alemanha poderiam ser implementadas no Brasil para que o processo de reciclagem se torne uma realidade efetiva?

A Política Nacional de Resíduos Sólidos brasileira é baseada fortemente na política de resíduos da Alemanha e da comunidade europeia. Portanto, as demandas resultantes de uma lei de primeiro mundo requerem soluções de primeiro mundo. Não dá para solucionar demanda de primeiro mundo com improvisações ou manter o mesmo padrão. É preciso inovar para se elevar o nível de soluções.

A gestão e o gerenciamento de resíduos sólidos em total conformidade com a lei 12.305/2010 é o caminho certo. Para aplicar as soluções que a lei pede, basta remodelar como fez a Alemanha. Não há necessidade de se reinventar a roda.

Quais entraves o Brasil ainda enfrenta para realizar a reciclagem de orgânicos e transformar o lixo em energia? Há algum exemplo alemão que poderia se aplicar em nosso país?

Diferentemente da Alemanha, o Brasil tem um potencial gigantesco nessa área. Por se tratar de um país que tem sua base econômica no agronegócio, a quantidade de matéria-prima disponível – e, portanto, também a capacidade de geração de energia e biofertilizantes – é muito maior.

Novamente, aqui é decisivo dominar não somente a tecnologia de biodigestão anaeróbia, mas também a metodologia de se fazer negócios lucrativos. Ao garantir viabilidade econômica, investidores de todo o mundo se interessam por projetos de geração de energia com sustentabilidade. Atualmente, eu sou procurado por inúmeros investidores europeus que se interessam por projetos de Bioenergia no Brasil.

“Nosso grande desafio é vencer a barreira da informação qualificada para que se aprenda a fazer negócios e não mais dizer que não há recursos para o setor”

Como funciona o sistema de logística reversa na Alemanha? Todas as indústrias já contam com o programa?

As legislações brasileiras e alemãs para a logística reversa são bastante parecidas. Para resolver esse desafio, as associações representantes das empresas montaram por conta própria o sistema de logística reversa. Literalmente arregaçaram as mangas e resolveram o problema. Decisivo aqui foi a pressão feita pelo poder público cobrando as soluções desejadas.

Como o Brasil pode tirar do papel o Plano Nacional de Resíduos Sólidos?

É extremamente importante investir em qualificação técnica para consultorias. Acredito que o consultor tem um papel fundamental aqui, levando informações certas, se reunindo com o setor privado e ajudando o setor público a cumprir a legislação. Quanto mais pessoas trabalharem na elaboração de modelos de negócio com viabilidade econômica, mais projetos inaugurados teremos.

Deixar o desenvolvimento deste setor somente nas mãos do poder público condena todos ao fracasso. É preciso aproveitar o momento em que a lei 12.305/2010 está forte e não foi alterada para estimular negócios. Nós, do setor privado, temos uma responsabilidade grande aqui.

Em outros países, como a própria Alemanha, há subsídios para as empresas que utilizam material reciclado. No Brasil, pelo contrário, existe uma tributação que o encarece. Não há incentivo fiscal. Como mudar esta realidade?

A pergunta já conduz à resposta. O que se fala aqui é da viabilidade econômica dos projetos. Para que isso fique claro, os consultores precisam fazer demonstrações com exemplos reais da inviabilidade de determinados projetos. A partir disso, pode-se fazer pressão para que os legisladores locais façam as devidas adaptações na lei, conforme desejado pela própria PNRS, quando exige que os municípios elaborem seus Planos Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos.

O Governo Federal já fez a sua parte. É importante que não só os gestores municipais façam a sua, mas também os consultores especializados aumentem a pressão por meio da demonstração de suas competências.

“Deixar o desenvolvimento deste setor somente nas mãos do poder público condena todos ao fracasso”

Muitos países incineram os resíduos que não são recicláveis. No Brasil, porém, especialistas são contra a ideia pelo fato de que, durante o processo, são queimados recursos naturais que poderiam virar matéria-prima – além de gases nocivos que são eliminados na queima. O senhor acredita que essa seria uma boa opção em relação aos aterros sanitários e lixões que ainda existem no país?

A Política Nacional de Resíduos Sólidos não proíbe o uso da tecnologia de incineração de resíduos, pelo contrário. Porém, diferente do que existe em países desenvolvidos, o Brasil adaptou a lei de forma muito inteligente e incluiu os catadores de material reciclável – ou reutilizável – e a população de baixa renda para criar uma política desenvolvimentista com cunho social. Na Alemanha não existem catadores, por isso não se faz necessário este recurso legal.

Tenho diversos projetos em andamento na África. Diversos países do continente torcem para que o Brasil consiga aplicar a lei para que depois possam modelar o exemplo. Com uma visão mais global, entende-se que na verdade o Brasil tem uma oportunidade incrível nas mãos e pode transformar o setor de resíduos em um fortíssimo segmento para o PIB nacional, à exemplo do que já faz a Alemanha.

 

“O Brasil tem uma oportunidade incrível nas mãos e pode transformar o setor de resíduos em um fortíssimo segmento para o PIB nacional”

Tags: entrevistas
Espalhe essa informação

Assuntos Relacionados