Catadoras discutem desafios de tirar sustento do lixo

21/10/2019

Imagem - Roda de conversa reúne mulheres que falam sobre o desafio da profissão de catadora em São Paulo. Foto: Atelier de Imagem

Roda de conversa reúne mulheres que falam sobre o desafio da profissão de catadora em São Paulo. Foto: Atelier de Imagem

As mulheres são maioria entre os catadores de materiais recicláveis, representando 70% dos 800 mil trabalhadores em atividade no Brasil. Os dados, do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), reforçam o protagonismo feminino da profissão e foi tema de uma roda de conversa da programação da Semana Lixo Zero no dia de sua abertura, em 18 de outubro.

Nem o trânsito e, tampouco, o calor da tarde da sexta-feira desviaram cerca de 15 mulheres que se reuniram para conhecer e entender os desafios do trabalho na reciclagem e a qualidade de vida das catadoras, que vivem apenas do dinheiro retirado dos resíduos. Aberta ao público, a conversa aconteceu no Parque Natural Fazenda do Carmo, primeiro prédio público municipal sustentável de São Paulo, na zona Leste.

Atuando como catadora desde os oito anos, Helena Aparecida da Silva esteve entre as três vozes que representaram as mulheres na roda. Emocionada, ela contou que antigamente era muito mais difícil de encontrar materiais recicláveis e que a necessidade fazia com que ela, seu pai e sua irmã pedissem por ajuda nas casas.

“Chegamos a não ter nem o que comer, o jeito era procurar na rua”.

Cooperativa só de mulheres

Hoje, com 52 anos e mãe de quatro filhos, Dona Helena é presidente da Cooperativa Filadélfia, formada apenas por mulheres. A rotina por lá é intensa: as nove integrantes acordam às 5h30 da manhã para começar a coleta que exige um trabalho completamente braçal, sem nenhuma etapa mecanizada. “A gente sente saudade de puxar carroça, mas na cooperativa você aprende a amar as pessoas, ter união e ter respeito pelo trabalho dos outros. É uma escola de solidariedade”, disse.

O empoderamento feminino também está no DNA da cooperativa e de Dona Helena, que espalha aos quatro ventos que nunca dependeu de marido ou de qualquer outra ajuda para conseguir o que tem.

“Eu não sei trabalhar de outra coisa, eu só sei trabalhar com material reciclável. Mas tudo que a gente quer na vida a gente tem que lutar para ter, e eu tive”.

Entre as histórias especiais que a presidente da Cooperativa partilhou, está a lembrança de uma caçamba de papelão que serviu de sustento para realizar a festa de aniversário de um de seus filhos. “Eles se orgulham de mim e eu também por tudo que conquistei. Amo o que faço e não tenho vergonha, está dentro de mim”, contou Dona Helena.

Reinserção social

Garantir o sustento dos filhos com o dinheiro do material reciclável também é a realidade de Cristiane da Penha José, 45 anos.

“Hoje o que a gente ganha não é muito, mas dá para se sustentar”.

Integrante da Cooperativa Mofarrej, na zona Oeste, enfrentou um mundo de desafios para hoje ter um espaço destinado ao seu trabalho.

“Nós começamos a cooperativa com os 32 moradores de rua que viviam embaixo do viaduto e eu era uma delas. Estamos atualmente com apenas 7 pessoas. Muitas delas abandonaram o trabalho na Cooperativa ou até morreram”, explicou. Presidente do espaço, Cristiane acredita no poder feminino e entende que as mulheres são indispensáveis para o funcionamento da Cooperativa. E que se não fosse sua determinação e seu trabalho com o lixo, não teria tido a oportunidade de uma reinserção social.

Um mundo valioso

A história de Suzete Melo, 38 anos, se mistura com a de muitas famílias que vivem da renda da Coreji Associação de Reciclagem Jardim Itapema, na zona Leste. “Caí de paraquedas nesse mundo ao vir de outro estado para São Paulo com meu filho pequeno no colo e conheci um mundo de descoberta muito grande e muito valioso".

Na Associação, Suzete desempenha uma atividade de nicho no ramo da reciclagem: seu papel é o de separar a borracha de placas de alumínio, chamadas de ACM. Mas além disso, atua com foco no trabalho social. “Nosso objetivo é tirar as crianças da realidade em que vivem na comunidade, já que o mundo real delas é a mãe sentar com o filho para usar drogas”, destacou. A iniciativa acontece por meio de conversas, atividades culturais e festas temáticas que buscam apresentar um outro cenário para essas crianças.

Conhecer para preservar

Com o objetivo de incentivar a conscientização da população sobre hábitos e comportamentos que geram impacto ao meio ambiente, a Semana Lixo Zero acontece entre os dias 18 a 27 de outubro em pontos descentralizados de São Paulo, além de outras 99 cidades no Brasil. A mobilização busca reunir especialistas em gestão de resíduos, empresas e cidadãos em prol de um tema “Um por todos e todos por zero".  

A programação completa pode ser acessada aqui.

Texto produzido em 21/10/2019

Tags: matérias
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