Curso de capacitação recicla vida de catadores em SP

10/04/2019

Imagem - Foto: Atelier de Imagem

Foto: Atelier de Imagem

“Quem quer receber o certificado hoje?”. Foi com essa pergunta que o mobilizador ambiental Anderson Lopes abriu a cerimônia de formatura dos 130 catadores do Programa Reciclar para Capacitar, no CEU Inácio Monteiro, na manhã fria da quarta-feira, 10. Responsável pelas aulas práticas ministradas na cooperativa de São Mateus, o catador seguiu com os questionamentos ao público: “E quem gostou do curso?”.

A reposta que ele buscava estava na experiência de Mara Lucia Eduarda, 58, que afirmou que faria as aulas novamente. A auxiliar de limpeza nada conhecia sobre o universo do lixo, até se deparar com a oportunidade de ter uma formação na área. Moradora de São Paulo, ficou sabendo do Programa de Formação Básica em Materiais Recicláveis, da turma de Cidade Tiradentes, pelo Movimento Cultural do bairro onde mora. “Nem imaginava que as pessoas podiam viver do lixo. Depois do curso, minha visão mudou completamente”, disse.

Desempregada e vítima do preconceito existente no mercado de trabalho em decorrência da sua idade, Mara pretende sobreviver agora da coleta de resíduos. O diploma veio no momento certo para ajudá-la a ter uma nova chance. “Na reciclagem não tem esse tipo de discriminação, então agora poderei ter uma nova oportunidade. Hoje vejo o valor que o lixo tem”, contou.

A realidade que Mara não conhecia já fazia parte da vida de Ana Cristina Balbina, 34, que retira sua renda do lixo desde os 19 anos, quando começou a ser catadora ao lado do irmão. Nascida no Alto do Ipiranga, zona Sul de São Paulo, Ana conta que tudo o que tem hoje foi conquistado porque saiu às ruas para separar resíduos recicláveis. Com o dinheiro, conseguia comprar fraldas para sua filha e ainda pagar o barraco que morava com a mãe. “Passava nas casas e falava 'separa a latinha pra mim, por favor?', porque eu sabia o valor que aquilo teria para a minha vida", revelou.

Emocionada, Ana quer se aperfeiçoar na profissão e pretende enquadrar seu primeiro diploma, manuseado com extremo cuidado. Em casa, já orienta os quatros filhos a separarem o lixo de forma correta.

"Meu sonho é ensinar as pessoas da comunidade onde moro e aprender a dirigir para trabalhar no caminhão da coleta seletiva. Na reciclagem, você não fica desempregado", disse.

Imagem - Mara Lucia Eduarda, formanda do Programa Reciclar para Capacitar. Foto: Atelier de Imagem

Mara Lucia Eduarda, formanda do Programa Reciclar para Capacitar. Foto: Atelier de Imagem

O bairro da zeladoria

Ocupando o 5º lugar no ranking de bairro mais limpo de São Paulo, Cidade Tiradentes vive uma contradição. O local é o que tem menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da capital e fica em penúltimo lugar no que diz respeito ao orçamento destinado à limpeza e manutenção. De acordo com Oziel Evangelista de Souza, Subprefeito da região, o objetivo agora é fazer com que Cidade Tiradentes ganhe a fama de bairro da zeladoria.

"Essa capacitação veio para melhorar a qualidade de vida desses profissionais no sentido de renda e ocupação, além de ajudar os moradores a terem um bairro mais limpo", afirmou.

Presente no evento, a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho (SMDET), Aline Cardoso, enfatizou aos catadores a importância da sustentabilidade e o crescimento do setor. "Cidade Tiradentes é uma das regiões de São Paulo que tem menos emprego e mais dificuldades. Com o conhecimento que vocês adquiriram, terão capacidade para agarrar as oportunidades dessa área”, explicou.

A fala foi endossada pelo vereador Eduardo Suplicy, também presente na formatura. "Quero parabenizá-los e deixar aqui registrado meu orgulho de estar presente em um evento tão importante como esse, que valoriza a profissão de catador, gerando oportunidades e renda”.

Capacitar para reciclar

O Programa de Formação Básica em Materiais Recicláveis é uma iniciativa da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb) em parceria com a Prefeitura de São Paulo, que tem como objetivo capacitar 2.120 catadores atuantes no município. "Queremos com esse projeto unir forças da Prefeitura com os catadores da cidade com um único objetivo: melhorar a vida desses profissionais, tirá-los da informalidade e trazer formação para essas pessoas", explicou o engenheiro Túlio Barrozo Rossetti, gerente de Informação e Pesquisa da Amlurb.

Ministradas pela Fundação Instituto de Administração (FIA), as aulas são divididas em teóricas e práticas. Os alunos recebem um kit alimentação e uma bolsa auxílio, que resulta no valor de 210 reais. Segundo a Amlurb, o projeto formou até o momento 82% dos catadores que iniciaram o curso. A perspectiva é capacitar mais 1.090 pessoas, divididas em turmas de 400 alunos nas 10 subprefeituras que a iniciativa abarca.

Texto produzido em 10/04/2019

 

 

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