O caminho do lixo

20/08/2018

Diariamente, a cidade que carrega consigo a marca de 12 milhões de habitantes administra uma megaoperação, responsável por dar destino a cerca de 12 mil toneladas de lixo residencial.

Isso significa que cada paulistano produz uma média de 1 quilo de resíduos domiciliares todos os dias. Os números colocam a capital no topo do ranking das cidades que mais geram lixo do país. Os problemas ambientais relacionados a essa gigantesca produção e a importância da separação desses resíduos para um processo de reciclagem eficiente são velhos conhecidos. Mas o que poucos sabem é o que acontece com o lixo a partir das calçadas das casas e prédios da cidade. Que caminho ele percorre? Para onde ele vai? Por quais processos ele passa?

O problema envolvendo a gestão do lixo não é exatamente uma particularidade paulistana ou brasileira. A questão ocupa lugar central na pauta de discussões das maiores potências do mundo. Muitas delas, no entanto, já avançaram de maneira significativa transformando os resíduos em oportunidades de negócios, gerando renda e empregos. “O índice de reciclagem em outros países é muito maior, o que significa dizer que estamos em uma situação catastrófica com o uso exagerado e impensado de recursos naturais”, aponta Ana Maria Domingues Luz, especialista engajada na implantação de programas voltados à preservação do meio ambiente e presidente do Instituto Gea - Ética e Meio Ambiente.

Por aqui o caminho ainda é longo e passa, necessariamente, por uma reavaliação de conduta que começa dentro de casa. Isso porque, diferentemente do que se possa imaginar, colocar o lixo para fora não configura o fim do processo, mas apenas o início de uma cadeia onerosa e complexa. “Por exemplo, se o seu lixo fosse enterrado no jardim do condomínio em que você mora, quanto tempo aquele espaço daria conta de armazenar os rejeitos? Nós temos uma barbaridade de lixo, montanhas e montanhas, mas como está fora da nossa vista, pois vão para os aterros, isso acaba não tendo importância”, alerta a pesquisadora.

Atualmente, na capital paulista, a coleta é realizada por duas concessionárias: a Loga e a Ecourbis, que dividem a operação por regiões da cidade. A Loga é responsável pelas zonas central, norte e oeste da cidade de São Paulo e a Ecourbis, pelas zonas sul e leste, respectivamente. “O maior desafio da coleta seletiva em São Paulo é a falta de adesão. É a dificuldade que temos de mostrar para a população que é muito importante, tanto pelo lado ambiental, como social”, afirma Walter de Freitas, superintendente operacional da Ecourbis.

O trabalho é fiscalizado pela Amlurb, a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana, órgão da Prefeitura responsável também pela coordenação e orientação da coleta de lixo.


À frente da instituição está Edson Tomaz Filho. “Temos que trabalhar nosso lixo de tal maneira que pelo menos 30% dele seja reciclável. Das 12 mil toneladas que São Paulo produz hoje, 3.600 têm total condição de serem reaproveitadas”.

A coleta é dividida em dois tipos: a domiciliar e a seletiva, ambas realizadas nas residências. A domiciliar recolhe todo o lixo que é produzido nas casas e que não pode ser reaproveitado. São sobras de alimentos como cascas, restos, bagaços, papel higiênico, fralda descartável, ponta de cigarro. Já a coleta seletiva é destinada ao lixo reciclável, ou seja, aquele que pode ser reaproveitado: latas de refrigerante, garrafas pet, papéis, papelão, embalagens plásticas, vidro, entre outros. Na contramão do que muitos imaginam, esses dois tipos de lixo não são misturados. Por isso, a coleta é realizada em dias alternados e em caminhões compactadores com características diferentes.

Imagem - Caminhão de coleta reciclável. Foto: Antonio Brasiliano

Caminhão de coleta reciclável. Foto: Antonio Brasiliano

Caminhões: saiba identificar

O sistema de limpeza urbana funciona como uma orquestra. São 363 caminhões de coleta domiciliar e 72 caminhões de coleta seletiva. Eles saem diariamente da sede das concessionárias para a realização do serviço com um roteiro pré-determinado, a ser cumprido por uma equipe formada por 3 coletores e um motorista. Os motoristas são guiados por um GPS e têm acompanhamento em tempo real da execução do trabalho. Mas não pense que é tarefa fácil enfrentar os obstáculos diários da cidade para cumprir o itinerário determinado.

 

“O trânsito complica a gente, rua sem saída, festas, obras, o pedestre. Você não pode falhar, porque eu sei que os meus amigos de trabalho dependem da minha operação”, conta José Inacio de Souza, motorista de caminhão da Loga.

Os dois tipos de caminhões que passam na porta das residências têm características diferentes. O veículo que recolhe o lixo domiciliar consegue compactar uma grande quantidade de sacos, já que todo o material não será reaproveitado. A prensa compactadora é acionada diversas vezes para juntar a maior quantidade de lixo possível. Esse tipo de caminhão pode armazenar até 10 toneladas. 

 Já o caminhão da coleta seletiva transporta menos quantidade, cerca de 3 toneladas, uma vez que o material coletado não pode ser danificado e será reaproveitado. Esse tipo de lixo é leve, volumoso e reciclável. O equipamento é o mesmo utilizado na coleta domiciliar, mas a pressão utilizada para compactar o lixo é muito menor, já que visa apenas a acomodar o resíduo dentro da caixa compactadora. Cada tipo de caminhão tem um horário diferente para recolher o lixo nas ruas da cidade. Para saber em que horário o caminhão da coleta irá passar em sua rua acesse o link.

 A falta de informação sobre o assunto leva a população ao erro. Não são raros os episódios de descartes equivocados de resíduos, provocando acidentes e dificultando a operação.

“Não pode colocar seringa, vidro, gilete. As pessoas teriam que cortar a garrafa e colocar dentro. Ou então até mesmo escrever numa caixa que é vidro para evitar acidentes. Porque querendo ou não a gente depende desse serviço. É nossa vida. Tem pessoas esperando a gente em casa“, relata o coletor de lixo reciclável, Clovis Alves Vieira Júnior.

Imagem - Foto: Antonio Brasiliano

Foto: Antonio Brasiliano

Eu sou coletora, lixeiro é quem gera

A importância de todo trabalho envolvendo a gestão do lixo é inquestionável. Essencial para a rotina da cidade e seus cidadãos. Mas na prática, a atuação de quem está na rua, subindo e descendo de caminhões e se expondo a riscos de toda ordem, está bem longe de ser tranquila. Para além dos desafios inerentes da profissão, como ameaças de atropelamento, quedas e acidentes envolvendo o manuseio dos resíduos, a equipe de coleta lida muitas vezes com a falta de compreensão da própria população. “Às vezes, tem uma fila de carro atrás do caminhão e enquanto o lixo é colocado no container o pessoal está xingando, buzinando. É o próprio morador do bairro. Eu estou pegando o lixo dele e ele está me xingando porque quer passar”, conta a motorista de caminhão da Ecourbis, Júlia dos Santos.

O estigma envolvendo esses profissionais vai além da falta de paciência por parte de alguns e, por vezes, esbarra no preconceito oriundo do fato de terem como tarefa principal a manipulação do lixo. “Eu não sou lixeira. Lixeiros são os que fazem o lixo, eu sou coletora. Nós somos indispensáveis na rua e você se sente importante, nós somos importantes”, complementa.

Embora a coleta facilite a rotina do cidadão, na medida em que recolhe o lixo em sua residência, a ação não exime as pessoas da responsabilidade sobre a produção de seus próprios resíduos.

“A população não sabe, mas pela legislação ela é responsável desde o começo da geração até o final da vida do resíduo. E isso começa a partir da maneira que se coloca o resíduo dentro do saco de lixo", diz o superintendente operacional da Ecourbis.

Separar é fundamental

A premissa de que o trabalho envolvendo a coleta seletiva começa dentro de casa é determinante para o sucesso do processo. Isso porque, na medida em que não há a separação dos resíduos nas residências, muito do que poderia ser reaproveitado acaba integrando o rol de rejeitos comuns e indo parar no aterro sanitário. Essa atitude acarreta não apenas enormes prejuízos ambientais, mas também financeiros.

“Lixo é o que não tem valor econômico, o que não pode ser transformado e que vira rejeito”, explica Elisangela Leal, coordenadora de educação ambiental da Ecourbis. Já os resíduos recicláveis seguem por diferentes caminhos e acabam, muitas vezes, se tornando matéria-prima para a própria indústria. Os materiais recicláveis são coletados porta a porta e transportados para a central mecanizada de triagem. O rejeito é o material que não foi identificado como reciclável e seguirá para o transbordo, junto com os demais resíduos da coleta domiciliar, destinados ao aterro sanitário.

Quem separar o lixo em casa ou no trabalho só precisa ter a preocupação de dividir entre orgânico e reciclável. Pronto. Especialistas defendem a ideia de que o Brasil precisa avançar na implantação de legislação mais rigorosa quanto à obrigatoriedade da coleta seletiva em grandes centros. “Os gestores deveriam ter o entendimento de que os recursos naturais acabam e que a capacidade de suporte do meio ambiente é limitada. Os resíduos sólidos são recursos que devem ser reinseridos na economia”, avalia a especialista em resíduos sólidos e professora do departamento ambiental da Universidade Federal da Bahia, Viviana Zanta.

O presidente da Amlurb ressalta a importância do aprimoramento de políticas públicas e o engajamento da população para a mudança do cenário que envolve a questão do lixo na cidade de São Paulo. “Temos que mobilizar as ONGs, a população. Fazer com que as pessoas se conscientizem de sua postura como algo fundamental para a questão dos resíduos na cidade”, diz Edson Tomaz. O objetivo é que ao longo desse ano a coleta seletiva seja universalizada para atingir 100% das residências.

A Coleta Seletiva nas Centrais de Triagem

Os resíduos oriundos da coleta seletiva são levados para Centrais Mecanizadas de Triagens, que têm etapas manuais e automatizadas, onde há separação por tipo de material: papéis, plásticos, metais, vidros e embalagens do tipo Tetra Pak. Em cada central há pelo menos uma cooperativa de trabalhadores, responsável pelo processo de triagem dos materiais e pela venda às empresas recicladoras, que transformam o lixo em matéria-prima de produtos.

Na Central Mecanizada de Triagem Carolina Maria de Jesus, gerenciada pela concessionária Ecourbis, o lixo descarregado no pátio é levado por uma pá carregadeira até um rasga-sacos. Depois dessa etapa, os resíduos são transportados por uma esteira para a parte interna da central, que identifica o material e faz a separação por tamanho: grandes, médios e finos. O local possui equipamentos balísticos (que separam o material por pesos e formatos) e sensores óticos, que distribuem o lixo em esteiras (papel branco, papel misto, papelão, filme, PETs, entre outros).

Na sequência, o lixo segue para a triagem manual onde os funcionários das concessionárias atuam como controladores de qualidade, separando os materiais de forma semelhante ao trabalho realizado nas cooperativas. O lixo separado é levado para silos (reservatórios), onde materiais do mesmo tipo são reunidos e prensados em formato de fardos, que serão vendidos posteriormente.

Na Central Mecanizada de Triagem e Estação de Transbordo Ponte Pequena, gerenciada pela Loga, o processo é parecido. O material reciclável é depositado pelos caminhões de coleta em um galpão, que através de mini carregadeiras depositam os resíduos nas esteiras. Primeiramente, esses resíduos passam por uma cabine primária para uma triagem inicial dos materiais. São separados vidros, papelão, rejeitos e materiais volumosos.

O restante dos resíduos é encaminhado para peneiras rotativas, um equipamento que separa os materiais de acordo com o tamanho, direcionando-os para outras duas esteiras diferentes: a de rejeitos e materiais volumosos. Os resíduos também seguem para outro equipamento chamado de rasga sacos, que envia os materiais para o separador balístico. Ele é responsável por classificar e encaminhar os resíduos de acordo com o peso e a forma: os planos, chamados de 2D (papéis e filmes plásticos, por exemplo) e os rodantes, chamados de 3D (potes, PETs, latinhas, embalagens Tetra Pak).

Os resíduos 2D seguem para a separação manual, onde os filmes plásticos são separados por sucção e os papéis podem ser selecionados por tipo ou cor. Já os 3D seguem para o equipamento magnético que separa e encaminha os metais para uma prensa, formando os fardos que serão encaminhados para a reciclagem. O restante vai para separadores ópticos que identifica e separa diversos tipos e cores de plásticos diferentes (PET, PP, PEAD, Cristal ou coloridos), além de compostos de embalagens Tetra Pak.

Depois disso, os resíduos passam por um controle de qualidade, uma espécie de ‘pente fino’ realizado por funcionários das cooperativas que atuam na Loga e cada material segue para sua baia de armazenagem. As esteiras levam o restante para o separador de não ferrosos, como alumínio, por exemplo. O que não pode ser aproveitado segue para a esteira final dos rejeitos para ser encaminhado aos aterros sanitários. 

As baias de estocagem são monitoradas por uma sala de controle que identifica quando elas atingem sua capacidade máxima e acionam a linha final de esteira enviando o que foi separado para a prensa. Assim, é feita a compactação e a preparação dos fardos de material reciclado prontos para serem comercializados. 

Após a separação correta do lixo reciclável, o que não é reaproveitável irá para o rejeito das centrais e, depois, para os Aterros Sanitários. Todo o lucro da venda do lixo reciclável fica com as cooperativas, que atuam dentro e fora das centrais de triagem e são devidamente cadastradas pela Prefeitura de São Paulo.

Estação de Transbordo

Como muitas vezes a distância entre o local de coleta de lixo e os aterros sanitários da Prefeitura é grande, em São Paulo foram criados três pontos intermediários para destinação dos resíduos. São as Estações de Transbordo, locais onde o lixo é descarregado dos caminhões compactadores em um fosso e, depois, colocado com escavadeiras em uma carreta que leva todo o resíduo para o Aterro Sanitário, seu destino final. Cada carreta transporta o equivalente a carga de 3 caminhões de coleta de lixo.

São Paulo conta com três estações de transbordo:

- Estação Municipal de Transbordo de Resíduos Domiciliares (Transbordo Santo Amaro): Avenida Miguel Yunes, 746, Santo Amaro.

- Estação Municipal de Transbordo de Resíduos Domiciliares (Transbordo Vergueiro): Rua Breno Ferraz do Amaral, 415 A, Vergueiro.

- Estação de transbordo Ponte Pequena: Avenida do Estado, 300 - Bom Retiro.

Aterros Sanitários

Todo lixo comum produzido nas residências vai para os Aterros Sanitários, grandes áreas preparadas tecnicamente para receber diariamente o material não reciclável. “É uma obra de engenharia para a destinação ambientalmente correta dos resíduos. Você impermeabiliza o solo que vai receber o líquido, tem a captação de gases e a captação de chorume”, explica Edson José Stek, diretor de operações da Loga.

O caminhão chega ao aterro, é pesado em uma balança e descarrega o lixo. Com o uso de máquinas (tratores) inicia-se o processo de espalhar e compactar o lixo em camadas no terreno, que posteriormente será coberto por terra. Isso evita mal cheiro, insetos e animais.

Quando começa a se decompor, o lixo gera o chorume, um líquido escuro e produzido pela decomposição da matéria orgânica depositada, que será drenado e tratado para garantir a proteção ambiental, evitando a contaminação do solo e, principalmente, do lençol freático.

O tratamento do chorume é feito pela Sabesp, que recebe o líquido para efetuar o processo de separação da água e do lodo. A água é tratada e reutilizada e o lodo é destinado aos aterros sanitários, através de caminhões contratados pela Sabesp. A Central de Tratamento de Resíduos Leste, um dos dois aterros sanitários de São Paulo, faz o encaminhamento do chorume através do que eles chamam de emissários (tubulações específicas para transporte do líquido) ligados diretamente às duas estações de tratamento da Sabesp – a Estação Barueri e a Estação de Tratamento de Esgoto Parque Novo Mundo. Já, no segundo aterro, a Central de Tratamento e Valorização Ambiental, não há tubulações ligadas diretamente à Sabesp e o líquido é enviado através de caminhões pipa, coletados em plataformas de bombeamento. 

A decomposição do lixo também produz gases, entre eles o gás metano, um dos mais poluentes, que são coletados e queimados dentro da Estação de Queima de Biogás, localizada nos aterros, onde o gás metano é destruído para evitar a poluição do meio ambiente. Parte do biogás gerado nos aterros sanitários também é captado e destinado à usina termelétrica movida a biogás, onde o gás metano, decorrente da decomposição dos resíduos orgânicos, é utilizado como combustível para geração de energia elétrica. No caso de lixos hospitalares, industriais e de construção existem aterros sanitários específicos e de administração privada que recebem o que foi coletado.

A Prefeitura vem estudando alternativas para diminuir a quantidade de lixo direcionada aos aterros sanitários, como a implantação de um EcoParque, que terá a capacidade de processar 1.200 toneladas por dia de resíduos, tanto na reciclagem, quanto na compostagem. “A ideia é que dessas 1.200 toneladas por dia se devolva para os aterros sanitários apenas 10%. Estamos reduzindo bastante o que vai ser o disposto nos aterros”, afirma Edson Tomaz, presidente da Amlurb.

Os dois aterros sanitários que atende aos serviços de coleta de resíduos domiciliares são:

- Central de Tratamento de Resíduos Leste (CTL): Estrada do Sapopemba, 23325, em São Paulo.

- Central de Tratamento e Valorização Ambiental (CTVA): Rodovia dos Bandeirantes, s/n Km 33, em Caieras.

O que não pode ir para o lixo

Existem materiais que não podem ser jogados fora, colocados no lixo ou descartados como recicláveis. Itens como pilhas, baterias, lâmpadas, pneus, eletrodomésticos e eletrônicos, por exemplo, devem ser levados para locais específicos de descarte. Outros materiais, como entulho, resíduos de construção civil, madeiras e sofás velhos, podem ser depositados em locais específicos, como os Ecopontos.

A população também conta com a ajuda dos PEVs, Pontos de Entrega Voluntária, situados em locais públicos da cidade, similares aos Ecopontos, que também são grandes aliados no descarte correto de materiais recicláveis, porém em quantidade menor.Separar o lixo é simples e contribui de maneira significativa para a preservação do meio ambiente e para a coleta do lixo na sua cidade. 

Quando tivermos efetivamente preocupados com a destinação que o caminhão de lixo vai dar para o nosso resíduo, que é de nossa responsabilidade, aí sim estaremos inseridos no processo como um todo”, ressalta Walter.

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