Recicla entrevista: Ana Maria Domingues Luz, do Instituto GEA

Lixo sendo descartado. Foto: Jaromir Chalabala / Shutterstock.com

Presidente do Instituto GEA aposta em cooperativas para gerenciamento do lixo

28/03/2018

Imagem - Ana Maria Domingues Luz. Foto: Greenk Tech Show

Ana Maria Domingues Luz. Foto: Greenk Tech Show

Engajada na implantação de programas voltados à preservação do meio ambiente, Ana Maria Domingues Luz vem se destacando no trabalho de cidadania e educação ambiental, especialmente no que se refere ao gerenciamento do lixo no Brasil. Presidente do Instituto GEA – Ética e Meio Ambiente, atua desde 2011 em projetos de capacitação de cooperativas de catadores, com foco na destinação do lixo eletrônico, com objetivo de ampliar a coleta seletiva e a geração de emprego para a população. “As cooperativas normalmente têm galpão, veículos e pessoas para trabalhar. Você poderia facilmente capilarizar essa coleta praticamente no Brasil inteiro, em quase todas as cidades”, afirma.

Mestre em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo e com vasta experiência na área de planejamento urbano e regional, gerenciamento de resíduos sólidos, coleta seletiva e reciclagem, a especialista acredita na cobrança de uma taxa como alternativa para o gerenciamento do lixo nas cidades. “Precisamos ter a responsabilidade pelo que estamos descartando. Se a pessoa paga pelo quanto gera, ela começa a repensar”, enfatiza.

Ana também discute o incentivo governamental para esse tipo de engajamento e ressalta a importância da participação das pessoas no processo. “A população não pode ajudar se não tiver essa estrutura para coletar. Por outro lado, os programas inexistem sem a participação popular separando o material em casa e enviando para a reciclagem”.

Confira a entrevista na íntegra, a seguir:

A senhora preside o Instituto GEA – Ética e Meio Ambiente, uma ONG que realiza um trabalho de cidadania e educação ambiental, além de assessorar a população a implantar programas de coleta de lixo e reciclagem. A senhora acredita que o problema do lixo no Brasil persiste por falta de incentivo governamental ou por falta de informação da população sobre o problema?

Ambos. Você não tem um programa de coleta seletiva municipal efetivo se não tiver a estrutura. Isto é, o sistema de coleta, a logística, quem vai coletar, para onde vai levar. Isso é algo do âmbito do governo municipal em cada cidade. A população não pode ajudar se não tiver essa estrutura para coletar. Por outro lado, os programas inexistem sem a participação da população separando o material em casa e enviando para a reciclagem. São dois pontos indissociáveis. Muitas vezes, os programas não funcionam ou não vão para frente porque um desses pontos foi deixado de lado.

Em 2011, a senhora iniciou um trabalho em parceria com o laboratório de sustentabilidade da Poli -USP de capacitação de cooperativas para reaproveitamento de materiais eletrônicos, o Eco Eletro. A senhora acredita que a realização de parcerias com cooperativas de lixo seria uma alternativa mais efetiva para o problema do lixo em São Paulo?

Totalmente. No caso do Eco Eletro, é um trabalho que começou em 2011 para capacitação de cooperativas para lidar com o lixo eletrônico. Depois disso, a gente vem trabalhando com outros projetos e patrocínios até agora. Nós temos um projeto que está no Brasil inteiro, patrocinado pela Caixa Econômica Federal, para capacitar cooperativas para trabalhar com o lixo eletrônico. Chegamos à conclusão nos últimos anos de que seria a melhor solução para a destinação desse tipo de lixo no Brasil.

As cooperativas existem em quase todas as cidades. Se elas tiverem treinamento técnico e o mínimo de estruturação - bancada, ferramentas, EPIs (Equipamento de Proteção Individual) - para trabalharem com resíduos eletrônicos e se houver uma supervisão de instituição local, como uma ONG ou uma secretaria, são capazes (de atuarem). As cooperativas normalmente têm galpão, veículos e têm pessoas para trabalhar. Você poderia facilmente capilarizar essa coleta praticamente no Brasil inteiro, em quase todas as cidades. Uma coisa importantíssima: isso gera uma super renda para as cooperativas. Quando você envolve as cooperativas de catadores na coleta e destinação de resíduo eletrônico, você está atuando em vários pilares da sustentabilidade.

Na questão de resíduos em geral está mais do que definido no Brasil que as cooperativas de catadores são a forma de ampliar a coleta seletiva e gerar emprego para a população. Você tem pessoas que já pegam o lixo de uma forma insalubre, inadequada e incorreta. É a população que vive disso. Com o mínimo de investimento e interesse político, você capacita essas pessoas, arruma um galpão para elas trabalharem... (consegue) o mínimo de veículos para elas operarem a coleta seletiva. Com isso é possível implantar a coleta seletiva em quase todas as cidades do Brasil. Estou falando de resíduos recicláveis comuns. Esse é um modelo tupiniquim brasileiro e que está mais ou menos sedimentado. Não funciona bem, não está em sua melhor forma, porque há falta de conhecimento até dos entes públicos dessa complexidade da operação das cooperativas de catadores. Mas eu acho um modelo que, sem dúvida, poderia ser desenvolvido e implementado. Resíduo eletrônico é um item a mais nessa cesta de materiais que as cooperativas podem trabalhar, com uma complexidade ainda maior. Você tem que ter um treinamento maior, um acompanhamento maior.

A senhora se diz contrária à iniciativa de prefeituras que incentivam financeiramente a população a colaborar com a coleta seletiva. Na sua opinião, qual seria a melhor forma de conscientizar as pessoas sobre a importância do descarte correto do lixo?

Nós somos contra a Prefeitura que paga, que troca por caderno ou troca por desconto no IPTU, por exemplo. A gente acha que só vai ter uma mudança e um avanço na questão ambiental se as pessoas se preocuparem com o lixo, para onde ele vai, se tiver uma conscientização sobre isso. Se eu sou o cidadão de uma cidade e troco pelo desconto no IPTU, eu só vou separar o meu lixo enquanto eu tiver o desconto. Eu não estou fazendo porque acho que precisa, mas sim porque terei uma vantagem econômica por isso.

E como seria a melhor forma de conscientizar as pessoas?

Educação ambiental em profundo grau e continuada. Sensibilização, informação, mobilização de todos os setores da população. Isso não acontece em nenhum lugar. Normalmente, a questão da educação ambiental é levada a último plano quando se está planejando a coleta seletiva e precisa ser gasto muito dinheiro com isso. Precisa ser feito um trabalho nas escolas, nos condomínios, nas associações, fazer material e divulgação na imprensa. Você precisa gastar dinheiro com isso. Normalmente quem está planejando o programa nunca acha que vale a pena gastar com isso. No entanto, isso é que garante a estrutura e a participação da população. Se você não faz um trabalho que explique por que tem que separar, onde tem que separar, que dia passa na minha casa a coleta, ele não separa. E aí o programa não funciona.

Pesquisas internacionais apontam o plástico como um dos principais problemas de acúmulo de lixo no mundo, já que é produzido de maneira abundante e muitos têm sua destinação final em aterros ou oceanos. No Brasil, a situação não é diferente. Na sua opinião, como seria possível amenizar ou modificar esse cenário?

Eu não acho que é a supressão das embalagens plásticas. Eu volto ao ponto da conscientização e da mobilização. Por que tem tanto plástico no mar? Porque as pessoas jogam. Se você tivesse um trabalho para que as pessoas não jogassem, não estaria no mar. Não tem fiscalização, não tem problema nenhum e ninguém é punido por jogar qualquer tipo de lixo em lugar errado. Seja entulho, seja plástico. Volto a dizer que a questão é de conscientização e educação ambiental. Se todo mundo soubesse e visse as tartarugas mortas e os peixes que engoliram plásticos, talvez a gente conseguisse mudar a cabeça das pessoas para não jogarem o lixo de qualquer maneira.

 “Normalmente a questão da educação ambiental é levada a último plano quando se está planejando a coleta seletiva e precisa gastar muito dinheiro com isso”.

Imagem - Lixo acumulado. Foto: Alf Ribeiro/shutterstock.com

Lixo acumulado. Foto: Alf Ribeiro/shutterstock.com

Alguns especialistas passaram a defender a instituição de uma taxa do lixo para melhorar a gestão dos resíduos. Qual a opinião da senhora sobre isso?

Eu não sou contra uma taxa de lixo. Eu acho que realmente nós temos que ter a responsabilidade pelo que estamos jogando. Se você paga pelo quanto você gera, você começa a repensar. Talvez fosse positivo. Eu tenho medo é do uso que vai ser feito disso, porque a gente nunca sabe para onde vai o dinheiro recolhido na taxa. Se for para uma gestão melhor de resíduos e que isso seja realmente revertido em benefícios para a população em geral, com a redução de resíduos, com a formação de cooperativa de catadores, equipamentos e ampliação do conhecimento, sou a favor. Acho isso positivo e educativo, pagar a mais pelo lixo gerado e se você separa você paga menos. Eu acho isso certo.

Quais medidas seriam necessárias na cidade de São Paulo para que o gerenciamento do lixo se torne mais eficiente?

Na minha opinião não é nada tão simples. Se ampliassem as cooperativas que operam na cidade de São Paulo e elas estivessem estruturadas, com galpões adequados, com veículos e monitoramento e acompanhamento da gestão você conseguiria ampliar a coleta. Isso não é fácil, mas é simples. Basta ter vontade política, o que nunca tem. Primeiro ponto. O segundo ponto é aumentar o conhecimento da população sobre isso, com um sistema melhor estruturado de coleta dividido por áreas e roteiros estabelecidos, porque é uma bagunça do jeito que é.

Mas se aumentar o número, organizar melhor a cidade por áreas, equipar as cooperativas, dar um acompanhamento e informar a população sobre qual dia passa na sua casa, quem é a cooperativa que atende aquela população, eu acho que a gente consegue sem dúvida aumentar, e muito, a coleta.

 “Não sou contra uma taxa de lixo. Acho que temos que ter responsabilidade pelo que jogamos fora”

Graduação em Comunicações pela Universidade de São Paulo (1978) e mestrado em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo (2000). Atualmente é presidente da OSCIP ambiental Instituto Gea - Ética e Meio Ambiente. Tem experiência na área de Planejamento Urbano e Regional, com ênfase em Gerenciamento de Resíduos Sólidos, atuando principalmente nos seguintes temas: coleta seletiva, reciclagem, formação e capacitação de cooperativas de catadores, Gestão de resíduos eletroeletrônicos.

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