Chorume agora pode ser transformado em vapor de ar

22/01/2020

Imagem - Todo o processo acontece no Aterro Municipal de Santana de Parnaíba, em São Paulo. Foto: Techtools Ventures

Todo o processo acontece no Aterro Municipal de Santana de Parnaíba, em São Paulo. Foto: Techtools Ventures

Todo lixo comum que vai para qualquer aterro sanitário, grandes áreas preparadas para receber diariamente os resíduos não recicláveis, gera o chamado chorume, um líquido escuro e produzido pela decomposição da matéria orgânica. Quando em contato com o solo ou lençóis freáticos, ele é totalmente poluente e prejudicial. Na maioria dos casos, o composto já possui uma tubulação própria que leva o chorume até uma estação de tratamento de esgoto ou então são transportados por um caminhão até o local de limpeza.

Mas existe uma cidade que trata o chorume de um modo diferente. A apenas 40 quilômetros de São Paulo, trajeto que dura cerca de uma hora de carro, está o município de Santana de Parnaíba, que tem lançado mão de uma tecnologia inovadora. Contando apenas com o trabalho do ar, o município tem transformado o composto residual em água limpa, devolvendo-o para a atmosfera em forma de vapor. O processo acontece desde julho de 2018, no Aterro Municipal Tecipar.

A criação desse sistema é resultado de um projeto de cientistas e engenheiros denominado Wateffy, que conta com o apoio da empresa brasileira Techtools Ventures, uma aceleradora de startups.

“Decidimos começar a ação por Santana de Parnaíba, pois o aterro deles é de excelente qualidade e tamanho”, conta o presidente da Techtools, Jeff Plentz, que pretende investir cada vez mais em ações de alto impacto social e ambiental.

Com a ação, Santana de Parnaíba passa a dispensar o transporte de chorume para tratamento. Toda a base para transformar o líquido do resíduo em vapor de água foi instalada dentro do próprio aterro com cinco tanques, que formam a Estação de Tratamento do Chorume (ETC).

Conheça o processo

Todo o chorume gerado no aterro sanitário é encaminhado para o ponto mais baixo do terreno. No local, um fosso recebe o líquido residual formando uma espécie de lagoa preta, onde o composto fica armazenado temporariamente enquanto aguarda a entrada no primeiro tanque de tratamento.

Um sistema de bombeamento faz esse transporte e lá turbinas promovem um “turbilhonamento”, redemoinho criado pelo ar que faz a oxidação e a flotação, técnica de separação que consiste em bolhas de ar. As partículas que entram nas bolhas formam uma espuma que podem ser removidas do líquido, o que permite uma separação da sujeira da água.

Todo esse primeiro processo faz com que o ar, em alta velocidade, limpe o chorume e separe a água do material sólido. Esse resíduo é aspirado por um tubo acoplado no primeiro tanque e enviado de volta ao aterro sanitário. 

“Nosso diferencial é que em nenhuma etapa utilizamos agentes químicos, apenas físicos, como a ação do ar”, explica Jeff Plentz.

Depois, ele segue para um segundo tanque que limpará ainda mais o chorume utilizando o ozônio, retirado do ar na mesma hora por meio de cilindros que estão acoplados no reservatório. É nessa etapa que são purificados os metais, os sais e microrganismos patogênicos (que podem provocar doenças).

Após passar pelos dois tanques e pelos processos de limpeza por meio do ar, o líquido vai para um terceiro reservatório onde repousa por seis horas. Após o descanso, o composto, que já está limpo, vai para 72 nebulizadores, espécie de canos espalhados nas partes mais altas do aterro, que transformarão a água tratada em névoa, devolvendo minúsculas gotículas de água limpa para a atmosfera.

O processo devolve 1.100 litros de água por hora tratada para o ar. De acordo com o presidente da Techtools, o método é 60% mais econômico que outros disponíveis. O investimento para implantar a Estação de Tratamento de Chorume foi de cerca de R$ 2 milhões.

“Até um condomínio residencial pode ter um pequeno aterro, tratar o chorume e transformar em névoa. Já estamos testando em dois espaços domiciliares, um no Rio Grande do Norte e outro em Campinas, no interior de São Paulo”, conta Jeff.  

O projeto Wateffy atua ainda na transformação de água salobra em potável em um condomínio residencial na Praia Grande, litoral Sul paulista, por meio de uma Estação de Tratamento de Água (ETA).

Em São Paulo

Na capital, o tratamento do chorume é feito pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), que recebe o líquido para realizar a separação da água e do lodo. A água é tratada e reutilizada e o lodo é destinado aos aterros sanitários, através de caminhões contratados pela empresa.

A Central de Tratamento de Resíduos Leste (CTL) faz o encaminhamento do chorume por meio de emissários (tubulações específicas para transporte do líquido), ligados diretamente às duas estações de tratamento da Sabesp (Estação Barueri e Estação de Tratamento de Esgoto Parque Novo Mundo).

Conheça todo o processo aqui.

Texto produzido em 01/04/2019

Tags: matérias
Espalhe essa informação

Assuntos Relacionados