Vila Santa Inês vista de cima. Foto: André Albuquerque (Dezola)

Limpeza transforma bairros e vidas na periferia

31/07/2018

Imagem - Moradores da Vila Santa Inês – São Paulo, capital. Foto: André Albuquerque (Dezola)

Moradores da Vila Santa Inês – São Paulo, capital. Foto: André Albuquerque (Dezola)

Era julho de 2008. Aragão estava em casa quando a campainha tocou. Visitas inesperadas tinham se tornado frequentes na vida do líder comunitário e educador, que há mais de quarenta anos divide a rotina com outras 26 mil pessoas na Vila Santa Inês, coração de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo. Do lado de fora duas senhoras aguardavam ansiosas por sua presença. Desde o início dos anos 1990, quando decidiu se dedicar integralmente às atividades do bairro, muita coisa mudou e outras tantas ficaram pelo caminho, como a função de agente de saúde. O tempo ficou abreviado. O nome também, Ionilton Gomes de Aragão passou a ser simplesmente Aragão.

O baiano de Ibiquera, município situado na Chapada Diamantina, sempre foi dado a desafios. Trazia no currículo a implantação de projetos culturais para o enfrentamento da violência no bairro. Também trabalhara em mutirões de moradia e na alfabetização de jovens e adultos.

A porta de casa virara escritório. Foi lá que recebeu das moradoras a reclamação de que o lixo estava se acumulando pelas ruas e vielas da comunidade. A sujeira começava a dificultar a circulação e a atrair ratos e baratas. Era preciso conscientizar e informar a comunidade sobre os horários de coleta e locais corretos de descarte do lixo.

A tarefa contou com a parceria do então coordenador de projetos de Hip Hop do bairro, Sergio Gomes. Juntos, decidiram realizar gincanas com crianças e familiares sobre o lixo. Sem patrocínio, o jeito foi contar com investimentos dos próprios participantes e da comunidade. Oficinas de teatro, coreografia e esportes eram realizadas sob a perspectiva da coleta seletiva e conscientização ambiental.

Aragão sabia que era preciso dar novos passos. As atividades lúdicas não dariam conta de eliminar o descarte irregular. Era necessário pensar em uma ação permanente. Em contato com a Prefeitura, conseguiu que fosse realizada uma ampla limpeza no local, além da instalação de uma caçamba em um ponto central da comunidade.

As pessoas, de fato, passaram a depositar o lixo lá. “Mas jogavam de tudo: entulhos, materiais de construção, sofás, colchões, madeira. E em vários horários diferentes. Era impossível coletar todo o lixo que estava ali”, relata o líder.

A comunidade permanecia suja. A principal rotatória da comunidade ficava constantemente encoberta de sacos de lixo. Até para entrar em algumas casas os moradores enfrentavam dificuldades, tamanha a quantidade de sujeira.

Mais uma vez Aragão acionou a Prefeitura e viabilizou a retirada de todo lixo do local. Em contrapartida, se comprometeu a cuidar pessoalmente da manutenção da limpeza por meio da atuação junto aos moradores. Para tal, ele e Sergio iniciaram a distribuição de informes com horários da coleta. Também gravaram vídeos amadores mostrando a situação do local e a importância do engajamento de todos. “Muitos já se envolveram ali mesmo, querendo contribuir com falas em vídeos sobre o problema e suas consequências”, conta.

Para garantir que as regras fossem cumpridas, Aragão montou campana no local e, cada vez que um morador vinha descartar o lixo antes do horário correto, reiterava o calendário. Alguns, no entanto, se recusavam a ficar com seus resíduos. Por isso, os próprios coordenadores do movimento passaram a armazenar o conteúdo até a coleta.

“A maioria das pessoas saia para trabalhar já com o lixo na mão para descartá-lo. Eu estava ali desde as 5h da manhã, todos os dias. Se pedisse para a pessoa retornar com o lixo, certamente perderia a adesão.”

A ideia era que os moradores, verificando a mudança do bairro, passassem a valorizar o projeto e, como consequência, aderissem a ele.

Imagem - Ionilton Gomes de Aragão. Foto: André Albuquerque (Dezola)

Ionilton Gomes de Aragão. Foto: André Albuquerque (Dezola)

30 DIAS

Em um mês, as mudanças já eram notórias e a população respondeu prontamente com uma mudança significativa de hábitos. Ainda que, vez por outra, alguém sugerisse a possibilidade de “dar um jeitinho” no cronograma. “Ô, Aragão, faltam só dez minutos, não pode?”.

Para o líder comunitário, além da informação difundida em profusão, a abordagem cuidadosa com as pessoas foi fundamental para o apoio. “Hoje se vejo alguém deixando o lixo na data errada já digo: não é dia do caminhão de lixo passar”, conta Jessiani Duarte, de 44 anos, que nasceu e cresceu na Vila.

Vocação

O desejo de contribuir com a comunidade se confunde com a história de Aragão. É difícil precisar quando começa um e termina outro. Há seis anos, Aragão chegou a pedir dinheiro emprestado para a mãe a fim de comprar sacos de lixo que seriam distribuídos entre os moradores. O objetivo era sensibilizá-los para que o lixo só fosse levado à rotatória nos dias e horários corretos.

“Ele pedia 5 reais todos os dias, mas não dizia para o que era. A mãe estava preocupada e veio me perguntar se sabia de algo. Foi aí que expliquei”, diverte-se Carmelita Ferreira, moradora da Vila há quarenta anos e voluntária do projeto.

VARRE VILA

Em 2012, Aragão conseguiu o apoio da Prefeitura de São Paulo e, em parceria com a SOMA (Soluções em Meio Ambiente), empresa responsável pela varrição das ruas nas zonas sul e parte da leste, e com a concessionária EcoUrbis, que cuida da coleta do lixo na mesma região, o projeto ganhou força, apoio estrutural e nome próprio: Varre Vila.

Hoje, a proposta conta com 28 colaboradores, sendo seis varredores contratados com carteira assinada na comunidade Santa Inês e 56 voluntários. Há também 37 voluntários que atuam na União Vila Nova realizando o primeiro contato com os moradores, entregando sacolas de lixo e conscientizando os moradores sobre o horário correto da coleta.

A produção de lixo na comunidade, que chegava à casa de 40 toneladas por dia, foi reduzida a cerca de 25. E a esmagadora maioria dos moradores, 95%, estima-se, descarta o lixo nos dias e horários certos. Os antigos pontos de descartes irregulares se tornaram locais de lazer e atividades culturais e esportivas para a população.

VIDAS

Se inicialmente a ideia era atuar com foco na limpeza do bairro, com o tempo o projeto ganhou contornos maiores. A iniciativa carrega consigo, além de Aragão, Sergio e outros voluntários, nomes de um bocado de gente que viu sua vida ser transformada a partir do Varre Vila.

Gilvanete Francisca, 57 anos, mais conhecida como Boneca, era empregada doméstica quando a oportunidade de atuar em uma das empresas que administram o lixo na comunidade bateu, literalmente, à sua porta. Foi Aragão quem a sondou sobre a possibilidade. “No começo, a sujeira era muita. Hoje é fácil. A rua está mais humanizada”, diz.

O trabalho lhe confere orgulho e melhores oportunidades. “Criei meus filhos e hoje crio meus netos com o dinheiro desse emprego. Posso dar uma vida melhor para eles. Agradeço a Deus todos os dias”.

A história reverbera também na voz de José Billy de Souza, conhecido como Billy, de 51 anos. O então pedreiro, que já atuava como parceiro e voluntário do projeto, tal qual Gilvanete, conta que viu seu coração bater mais forte pelo projeto durante uma festa na rotatória da comunidade, local mais castigado pelo lixo antes do Varre Vila.

“Hoje, sou mais alegre. Além de fazer o que gosto, não cabe mais nada no meu guarda-roupa. Quando era pedreiro, não tinha nem um par de chinelos”, conta. A melhor parte de trabalhar em Vila Santa Inês? “A comunidade é nossa. Faço com amor que vem de dentro. É realmente uma benção”.


AMPLIAÇÃO

O projeto cresceu e se multiplicou, dando origem também a “Nossa Vila Limpa”, que atua sob a mesma perspectiva em quatro bairros na zona norte de São Paulo: Jardim Elisa Maria, Jardim Vista Alegre, Vila Icaraí, Jardim Paraná – na Brasilândia – e um bairro na região da subprefeitura da Lapa, Vila Nova Jaguaré.

Juntos, eles atendem atualmente 17 prefeituras regionais nas zonas norte, leste e oeste de São Paulo. A nova edição teve o apoio e a idealização das empresas Inova, responsável pela varrição nas zonas oeste, norte, centro e parte da zona leste da capital, e da Loga, que atende as zonas oeste, norte e centro, além do apoio da Prefeitura.


RECONHECIMENTO

O sucesso do projeto transpôs os muros da comunidade. Tornou-se livro e exposição de arte, em 2016, pelas mãos do documentarista italiano Daniele Ottobre e dos fotógrafos Paulo Vitale, Marlene Bergamo e da italiana Anna La Stella. Os profissionais passaram quatro dias fotografando a Vila.

O livro “Se essa vila fosse minha” traz retratos dos moradores e fotos do cotidiano da comunidade. As imagens foram expostas na Galeria Olido, no centro de São Paulo, com quadros de fotos vendidos a 2 mil reais. A renda foi utilizada para a festa de aniversário de quatro anos do Varre Vila e para a revitalização das quadras da comunidade.


FUTURO

O sucesso da proposta encorajou passos ainda mais desafiadores. Aragão quer tornar a comunidade uma referência em educação ambiental, fazendo com que os moradores separem 50% dos resíduos recicláveis até 2027.

O pontapé inicial já foi dado. O Projeto Circulando já incentiva crianças a separarem e levarem material reciclável para suas escolas. Para entusiasmar a prática, os alunos que levam materiais têm direito a um dia de diversão, com brinquedos de buffet alugados, jogos e lanches. Tudo adquirido com o dinheiro da venda dos materiais junto a catadores locais. Os estudantes têm ainda palestras sobre a importância da separação do lixo e do trabalho dos catadores, com a oportunidade de conhecê-los pessoalmente a fim de quebrarem estigmas e enxergarem neles profissionais que atuam para melhorar a qualidade de vida do bairro.

A história dessa Vila não tem ponto final. Também deixou de ter assinatura ou carimbo de propriedade. Cresceu, se multiplicou e se apropriou de causas e vidas. Ela é meio nossa. É de São Paulo. Permanece abarcando pessoas, ideias e propósitos. Segue transformando realidades.

“Se nossa ideia perpetuar, as famílias continuarem atuando e assistindo nossos materiais, sinto que não vou morrer. Vou sair dessa esfera, mas nossa ideia vai permear”, finaliza Aragão.

 

VARRE VILA EM NÚMEROS

95% dos moradores descartam o lixo na nos dias e horários certos

Em 30 dias, a rotatória estava limpa

Aproximadamente 500 famílias – que moram em vielas em que os caminhões não entram – descartam o lixo na rotatória

4 comunidades atendidas, aproximadamente 110 mil pessoas

29 mil toneladas de lixo descartados semanalmente

750 lixeiras instaladas

Profissionais e Voluntários envolvidos diretamente no projeto

32 varredores (moradores dos bairros onde ocorre o projeto)

11 da equipe multiprofissional (Educadores Sociais, Professores, Estagiários, Assistente Social, Psicóloga e Comunicólogo)

120 voluntários

Tags: reportagens, vídeos
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