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Esteira de triagem da Cooperativa União. Foto: Thiago Mucci

Logística reversa: Quem deve assumir os custos?

25/07/2018

Imagem - Esteira de triagem da Cooperativa União. Foto: Thiago Mucci

Esteira de triagem da Cooperativa União. Foto: Thiago Mucci

Apesar de fazer parte das associações de reciclagem que surgiram há uma década e meia por meio de um programa de incentivos da Prefeitura, a Cooperativa União, com 14 anos de existência, defende um modelo de gestão no qual o empresariado assuma um pedaço maior dos custos da logística reversa. O objetivo é aumentar a remuneração das cooperativas e fazer com que elas mantenham sua função no campo da inserção social.

“As indústrias e os grandes prestadores de serviço deveriam pagar mais pelo trabalho que as cooperativas fazem, dentro do conceito de logística reversa, porque elas são as responsáveis pela geração de resíduos”, afirma o ex-presidente Pedro Gomes da Silva, de 52 anos, 15 dos quais dedicados ao cooperativismo e à capacitação de cooperados.

Na visão de Pedro, que participou de duas cooperativas de reciclagem, a função que as cooperativas têm desempenhado é a de gerar renda e oportunidade de trabalho aos socialmente excluídos. E para isso precisam de mais recursos, mas não necessariamente de dinheiro público, uma vez que a Prefeitura de São Paulo já custeia alugueis e insumos para as cooperativas conveniadas. “A Prefeitura já faz a sua parte e deve fiscalizar para que as cooperativas prestem um bom serviço.”

Caberia à indústria e as grandes empresas assumirem os custos pelo trabalho realizado pelas cooperativas. Hoje, como as demais irmãs, a cooperativa União depende da coleta seletiva feita pelas concessionárias da limpeza urbana e de doações de parceiros.

Isso permite com que os 33 cooperados da entidade recebam uma renda de um salário mínimo. No entanto, há meses que o dinheiro restante do abatimento dos custos da cooperativa, não chega a este valor.

Pedro acredita que é preciso inovar nas políticas de obtenção de receita. O primeiro ponto destacado por ele é de que as cooperativas deveriam ter acesso a ferramentas de gestão para alavancar a economia, como a emissão de títulos de crédito de carbono – papéis que podem ser trocados por dinheiro no mercado internacional, obtidos por organizações ou empresas quando estas adotam medidas de redução de emissões de gases.

“O que acho engraçado é que grandes redes, que inclusive têm ecopontos, onde as pessoas podem depositar resíduos que vão para as cooperativas, emitem créditos de carbono com base em nossos atestados”, explica. “Esta mesma grande rede tem uma ONG pela qual comercializa os produtos que ela mesma gera.”

O segundo ponto é que as cooperativas não obtêm bons preços, porque não vendem os recicláveis conjuntamente.

“Há falta de organização e falta de transparência entre os gestores. Por isso, não fazemos parte de nenhuma rede.”

Na opinião de Pedro, isso deveria mudar. “As megacentrais foram criadas para colocar nossos produtos coletivamente no mercado e isso é uma ideia que tem sido, até onde sei, cogitada pelo governo.”

Fonte de renda

Homem de fala firme e direta, Gomes da Silva estudou até a antiga oitava série do ensino fundamental, mas fala com muito embasamento teórico, quando o tema é o cooperativismo como oportunidade de gerar renda para pobres.

“Eu trabalhava como coletor de lixo na Prefeitura de Poá, mas atuava na Pastoral voluntariamente”, lembra. Há 15 anos, ficou sem emprego e naquela época estava sendo montada uma cooperativa para agregar renda aos futuros moradores de um conjunto habitacional na regional da Penha (embrião da Vitória da Penha, cooperativa existente até hoje e da qual Pedro foi membro por quatro anos). “As pessoas estão nas cooperativas porque não têm empregos”, explica.

Virando a mesa

Pedro chegou à cooperativa União em 2007 como consultor. Nesse período, depois de sucessivas gestões complicadas, a Prefeitura pediu à outras cooperativas que auxiliassem a entidade com medidas de gestão.

“Na época havia má-gestão, indícios de coisa errada e só ganhávamos R$ 30,00 por mês”, diz a atual presidente da União, Patrícia Lopes Santos Ferreira, 36 anos, e com 12 de cooperativa.

Quando chegou, Pedro organizou a instituição e parcelou as dívidas que chegavam a R$ 51 mil – provenientes de “adiantamentos” emprestados aos compradores e não quitados pelos ex-gestores que deixaram a cooperativa. “Em poucos meses, a renda já havia subido para R$ 400,00”, recorda Patrícia, que sucedeu o ex-presidente. “Fomos comemorar comendo no restaurante por quilo aqui ao lado, porque fazia tempo que não comíamos bem.”

Na ocasião, a situação era de falência iminente. Apenas seis cooperados haviam sobrado do quadro original, montado em 2004 com 20 associados. As coisas melhoraram e o número de empregados chegou a 41.

A cooperativa passou a ter maior atenção com os associados. Hoje, apesar de viver uma crise com a queda de materiais, a instituição consegue pagar os salários em dia e tem um convênio informal com um hospital privado da região, que auxilia alguns funcionários com problemas de saúde. “As cooperativas acabaram assumindo um papel social que vai além do trabalho de reciclagem”, explica Pedro.

Imagem - Foto: Thiago Mucci

Foto: Thiago Mucci

Novas oportunidades

Entende-se por papel social, a capacidade de uma cooperativa empregar pessoas que profissionalmente estão à margem do mercado. Isso inclui mães sem estudos que sustentam lares inteiros, ex-presidiários e dependentes químicos em recuperação.

A começar por Patrícia, a atual presidente da União. Filha de uma ex-moradora de rua e ex-carroceira, ela foi mãe aos 13 anos. “Não tive a orientação adequada em casa.” Casou-se com o pai do primeiro filho, com quem teria mais seis crianças, até se separar dez anos depois e conhecer o desemprego. “Eu já havia trabalhado em firmas, mas fiquei sem emprego e apareceu a cooperativa.”

Patrícia casou-se novamente e teve o oitavo filho. Hoje está com a vida estabilizada e satisfeita por comandar a União. Ela não é a única. A má sorte bate da mesma maneira à porta de pessoas com histórias distintas.

João Carlos Valderde tem 33 anos. É técnico em tecnologia da informação (TI). Trabalhou com editoração, fala Inglês, Espanhol e um pouco de Árabe. “Eu ajudei a implantar as máquinas do Bilhete Único no Metrô de São Paulo, fiquei doente e acabei mandado embora injustamente da empresa onde trabalhava.”

Há um ano, quando ficou desempregado, apareceu a oportunidade de atuar na cooperativa como secretário, uma vez que a entidade precisava de alguém com conhecimentos em informática e capacidade de gestão.

João está trabalhando na União há pouco mais de um mês. “O cooperativismo é algo com o qual tenho aprendido bastante”, diz Valverde, que sabe que um dia poderá voltar com uma oferta melhor ao mercado.

“Eu já cheguei a ganhar R$ 8 mil e não dava valor ao dinheiro. Hoje, aprendi a dar. A cooperativa dá chance para as pessoas retomarem seus caminhos.”

Valverde adora tecnologia e ama videogame. Atualmente, faz parte do Virtual Professional Soccer League, a liga profissional de futebol digital para plataformas Xbox e PlayStation 4. “Já sou o melhor goleiro do Brasil nesta temporada e o décimo quinto de todas as temporadas em Xbox”, orgulha-se Valverde, cujo nome no campeonato é LSL HOME. “Se tudo der certo uma das possibilidades é eu conseguir ganhar R$ 1.500,00.”

A Cooperativa União fica localizada na Rua São Felix do Piauí, 1221 – Vila Carmosina

Telefone: (11) 2254-8144 e (11) 2254-9657

Materiais reciclados: papel, plásticos (todos), vidros, metais comuns e papelão.

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