Entenda como funciona a mega operação de reciclagem em São Paulo

Central de tiragem Ponte Pequena. Foto: Recicla Sampa

Máquina de Reciclar

20/12/2018

Todos os dias, 72 caminhões da coleta seletiva, com dois coletores e um motorista, passam de porta em porta para recolher os recicláveis separados pela população. Eles são administrados pelas duas concessionárias de limpeza urbana de São Paulo: a Loga, que recolhe o lixo no centro, zonas norte e oeste; e a Ecourbis, responsável pelas zonas leste e sul. 

Cada caminhão armazena cerca de três toneladas de material. Ao contrário do que ocorre com o lixo comum, que é comprimido no veículo, os recicláveis são leves e volumosos e devem ser acomodados de maneira que não sejam danificados para não correr o risco de inviabilizar a reciclagem. Após a coleta, os caminhões seguem para as Centrais Mecanizadas de Triagens para a separação e destinação final dos materiais.

Na capital paulista existem duas Centrais Mecanizadas de Triagens, uma na Loga e outra na Ecourbis. Ambas são constituídas de máquinas automatizadas de reciclagem, consideradas as maiores e mais modernas da América Latina, que possuem as mesmas tecnologias usadas em países referências no processo, como a Alemanha e a França.

Com capacidade de selecionar mais de 250 toneladas de materiais por dia, o que possibilita reaproveitar de maneira mais eficiente os recicláveis, as máquinas contam com esteiras, leitores óticos e outros equipamentos que separam os recicláveis por categoria (papéis, plásticos, metais, vidros e embalagens do tipo Tetra Pak), tamanho e cor.

O processo de separação requer ainda o trabalho manual realizado pelos funcionários das cooperativas, que fazem a triagem final dos materiais que passaram pela máquina. No entanto, para que a operação ocorra de maneira eficaz é fundamental que a separação dos resíduos ocorra dentro de cada casa.

Imagem - Material reciclável indo para triagem. Foto: Franz12/shutterstock.com

Material reciclável indo para triagem. Foto: Franz12/shutterstock.com

Estação de Transbordo Ponte Pequena

Quando o reciclável chega até a Estação de Transbordo Ponte Pequena, administrada pela Loga, o material é depositado pelos caminhões de coleta em um galpão. Depois, mini carregadeiras depositam os materiais em esteiras que fazem parte de um sistema computadorizado da Central Mecanizada de Triagem.

Esse sistema computadorizado consegue identificar o que é plástico PET (geralmente garrafas de refrigerante), o PEAD (polietileno de alta densidade, como garrafas de óleo automotivo, tampas de garrafas de água e tambores de tintas), o papel e as embalagens Tetra Pak. Assim, seguem separados por tipo e são encaminhados automaticamente para outras esteiras.

Em seguida, os materiais são encaminhados para peneiras rotativas. E, nessa etapa, um equipamento separa os recicláveis de acordo com o tamanho, direcionando-os para outras duas esteiras diferentes: a de rejeitos (materiais que não servem para reciclagem) e a de materiais volumosos.

Depois, os recicláveis seguem para um equipamento chamado de separador balístico. Ele é responsável por classificar e encaminhar os recicláveis de acordo com o peso e a forma. Os planos, chamados de 2D (papéis e filmes plásticos, por exemplo), e os rodantes, chamados de 3D (potes, PETs, latinhas e embalagens Tetra Pak).

Os recicláveis 2D seguem para a separação manual feita por funcionários da Cooperativa Vira-Lata, a única que atua dentro da Loga. Já os 3D, são levados para um equipamento magnético que separa e encaminha os metais para uma prensa, formando os fardos que serão encaminhados para a reciclagem.

O sistema conta com a supervisão de um profissional da Loga. O técnico mecatrônico Augusto Colombo de Sousa é um dos responsáveis por manter a engrenagem funcionando, e por fazer a manutenção preventiva e corretiva das máquinas.

“Usamos as melhores tecnologias a favor da reciclagem, então é importante deixar o sistema sempre operando”, conta.

Por mais que haja um sistema tecnológico de separação, o trabalho manual é fundamental. Após passarem pelas máquinas, os recicláveis são submetidos a um controle de qualidade, uma espécie de ‘pente fino’, realizado mais uma vez por funcionários da Cooperativa Vira Lata. “Cada colaborador que atua separando esses materiais é importante. Esse trabalho garante que tenhamos materiais com bastante qualidade para as empresas compradoras”, conta Wilson Santos Pereira, coordenador da Cooperativa.

Depois de supervisionados, os materiais seguem cada um para sua devida baia de armazenagem, monitoradas por uma sala de controle que identifica quando elas atingem sua capacidade máxima. Finalmente, é feita a compactação e a preparação dos fardos para serem comercializados. De acordo com a Cooperativa, uma tonelada de plástico PET custa em torno de R$ 1.650,00. O PET é o mais valorizado e procurado pelas indústrias.

“Antes dessa tecnologia, o material que poderia ser reaproveitado pelas cooperativas ia para o aterro sanitário. Não ter um sistema de reciclagem significava jogar dinheiro fora”, conta Gustavo Nunes, coordenador de operações da Loga.

CMT Carolina Maria de Jesus. Foto: Recicla Sampa

Central Mecanizada de Triagem Carolina Maria de Jesus

Gerenciada pela concessionária Ecourbis, em uma área com mais de 4.800 m2, a Central recebe os recicláveis no pátio, onde são descarregados. De lá, são levados por uma pá carregadeira até um rasga-sacos, onde eles são abertos e seu conteúdo separado e transportado por esteira para o trommel, equipamento com mais de 20 metros de comprimento que funciona como uma peneira giratória que separa os materiais por dimensão.

Os recicláveis grandes, com tamanho superior a 25 cm, como caixas de papelão, são encaminhados diretamente para a cabine de triagem. Neste local, os cooperados atuam no controle de qualidade, segregando os materiais adequados para reciclagem e retirando eventuais rejeitos.

Já os materiais pequenos e médios, são transportados por uma esteira para a parte interna da Central, onde passam por um sensor ótico, além de separadores magnéticos e por indução, que identificam os tipos de recicláveis em 2D e 3D (duas e três dimensões). Nesta etapa, eles são separados por tipo e cor.

O plástico, por exemplo, é dividido em três categorias: o PET na cor verde, o transparente e o PEAD. Assim como também são separados caixas de suco de tetrapak e outros materiais.

“Após a separação por tipo, os materiais vão para outras esteiras que seguem para o Controle de Qualidade”, diz Jorge Melle, coordenador da Central.

O Controle de Qualidade é uma triagem manual em que os funcionários atuam separando os materiais de forma qualitativa. “Nossos agentes ambientais operam com um olhar de qualidade para selecionar ainda mais o que pode ser reciclado”, conta a coordenadora geral de Triagem da Ecourbis, Ariana de Medeiros.

Os recicláveis são separados e levados para os silos (reservatórios), onde materiais do mesmo tipo são reunidos, prensados e vendidos posteriormente. Todo o lucro da venda fica com as cooperativas, que atuam dentro e fora das centrais de triagem e são devidamente cadastradas pela Prefeitura de São Paulo.

A importância da separação

O morador é peça chave para o funcionamento desse engenhoso sistema de reciclagem. Separar corretamente os recicláveis é o que garante a operação e o reaproveitamento dos materiais, evitando que sejam enviados para os aterros sanitários. Para saber em que horário o caminhão da coleta passa em sua rua, o morador pode acessar  o link.

Esse hábito já faz parte da rotina da aposentada Neusa Guerreiro de Carvalho. Aos 88 anos, a bióloga faz a separação do lixo em sua casa há mais de 50 anos. Ela já sabe que toda terça-feira o caminhão da coleta seletiva da Ecourbis passa na porta da sua casa e leva os recicláveis até a Central Mecanizada de Triagem. “Sou aposentada, mas até hoje me atualizo sobre o meio ambiente em São Paulo. Fiquei sabendo como é a gestão do nosso lixo na cidade por meio de uma palestra sobre sustentabilidade”, explica. 

Conhecendo um pouco mais sobre o caminho do lixo na cidade, Neusa agora dissemina a cultura de “separar os materiais em dois” em seu condomínio. “Muitos moradores não fazem a coleta seletiva, mas eu tenho sido muito insistente sobre a importância dessa ação”, diz.

Quer saber mais sobre o caminho do lixo na cidade de São Paulo, clique aqui.

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