Conheça a Cooperativa Sem Fronteiras

Foto: Thiago Mucci

Maratonista e ex-modelo lideram cooperativa no Jaçanã

07/08/2018

Imagem - Esteira de triagem da cooperativa. Foto: Thiago Mucci

Esteira de triagem da cooperativa. Foto: Thiago Mucci

A vida como ela é

Rosemary é uma mulher negra, muito bonita e que não aparenta a idade. Filha de um capitão da PM já falecido, viveu dos 18 aos 22 anos como modelo profissional. Desfilou para grifes de lingerie e ganhou um concurso de Miss Havaiana. “Estava indo para a Europa quando meu pai teve um AVC e tive que desistir.”

Era o fim da carreira. Ela passou a dar aulas em escolinhas no bairro, mas optou por seguir carreira na área da saúde, mesmo não tendo condições de pagar o curso de auxiliar de enfermagem.

“Comecei a fazer reciclagem num cômodo de casa.”

Com a renda do que pegava para reciclar, Rosemary formou-se em auxiliar de enfermagem e passou a atuar em hospitais. “No horário livre eu continuava coletando resíduos pelo bairro, porque queria fazer o técnico em enfermagem e depois a faculdade.”

Os sonhos foram se realizando. “Os vizinhos e as pessoas no trabalho viam o que eu fazia com preconceito. Eu dizia: ‘o que para vocês era lixo, para mim era a renda que eu obtinha para sustentar meus estudos e meu filho’.”

Rosemary ingressaria no cooperativismo como uma das líderes de um dos 10 núcleos originais da Sem Fronteiras – e por coincidência, se chamava Recicla Sampa. A história de Hélio, hoje marido de Rosemary é parecida, mas um pouco mais acidentada.

Desde os 15 anos, já competia e, mais tarde, tornou-se atleta profissional, chegando a obter a 11ª colocação na São Silvestre e a 7ª na Meia Maratona do Rio de Janeiro. No período, fazia reciclagem para complementar a renda. Ele processava o que colhia de resíduos fora dos horários de treino, na associação de bairro da Vila Gustavo, também na região do Jaçanã.

Antes de chegar à Cooperativa, envolveu-se com o crime e, por conta de um assalto, acabou condenado a 3 anos de prisão. Foi um patrocinador, dono de uma rede de supermercados da região, que o salvou. “O seu Odílio Bergamini (empresário dono da rede) foi como um pai e me deu uma nova chance.”

A volta por cima seria finalizada no cooperativismo, não sem antes ter alguns outros incidentes com a lei. “Após montar um prostíbulo, percebi que todo o dinheiro que não vem do trabalho honesto não dá certo”, diz Hélio. “É o que falo para todo mundo aqui.”

Imagem - Caminhão de coleta de lixo. Foto: Thiago Mucci

Caminhão de coleta de lixo. Foto: Thiago Mucci

Ele se refere aos colegas de trabalho que são ex-presidiários, analfabetos, adictos e um ex-chefe do tráfico local. “A cooperativa tem uma função social importantíssima”, conta Hélio.

Os dramas são variados. Andreia, de 34 anos, é uma moça que, dos 15 aos 26, fez parte de uma gangue que atuava furtando lojas de roupas, até ser presa em flagrante, grávida de um filho. Decidiu parar e conseguiu arrumar emprego. “Mas é muito difícil quando se é ex-presidiário”, conta a moça, que trabalhou em dois supermercados por seis anos, fez bicos e há um ano foi parar na cooperativa Sem Fronteiras.

Antes disso, perdeu um filho morto por policiais militares numa perseguição mal explicada. O garoto, segundo a mãe, não estava armado. Tinha 14 anos. O baque da perda, ela tenta curar com o trabalho.

“A gente aumenta a autoestima destas pessoas”, diz Rosemary, que, depois de formada enfermeira, exerce a função de supervisora de saúde do trabalho na Sem Fronteiras. Como profissional da saúde, criou um plano de prevenção de acidentes e de doenças – e descobriu casos de doenças crônicas entre os cooperados.

O Recicla Sampa pergunta ao casal o motivo do nome Sem Fronteiras. Hélio explica: “a gente não queria se limitar ao bairro na coleta de resíduos, nem à renda atual obtida pelos cooperados. Quero chegar a R$ 10 a hora de remuneração, o que dá uma renda base de R$ 2.200 a R$ 3 mil”.

Até agora, chegou-se a R$ 8,50. “Batemos na trave, mas vamos conseguir”, afirma o ex-maratonista, que admite usar técnicas de corridas de longa distância na gestão. “Nós procuramos nos antecipar aos movimentos nas corridas, pegar vácuos e prever acontecimentos e isso ajuda a lidar com as pessoas e com as dificuldades.” Se a Sem Fronteiras fará jus ao nome e aos projetos, a história dirá. O casal e os cooperados apostam que sim.

A Cooperativa Sem Fronteiras fica na rua General Jeronimo Furtado, 572 – Jardim Jaçanã

Telefone: (11) 3969-4792 / (11) 3666-0849

Materiais reciclados: papel, plásticos (todos), vidros, metais comuns e papelão.

Tags: entrevistas, reportagens
Espalhe essa informação

Assuntos Relacionados