Sustentabilidade chega aos salões de beleza de São Paulo

19/12/2020

Imagem - Ainda em pouca quantidade no Brasil, esses salões amigos do meio ambiente estão enviando para reciclagem tubos de coloração, vidros de esmaltes e até mesmo tufos de cabelos que ficam espalhados pelo chão. Foto: Na Bahia

Ainda em pouca quantidade no Brasil, esses salões amigos do meio ambiente estão enviando para reciclagem tubos de coloração, vidros de esmaltes e até mesmo tufos de cabelos que ficam espalhados pelo chão. Foto: Na Bahia

Independente do cenário econômico brasileiro, um mercado de trabalho que está em constante crescimento são os salões de beleza. De acordo com dados do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) esses estabelecimentos possuem mais de 600 mil unidades no país. Existe uma questão em especial dentro desse nicho que tem mudado o conceito dos profissionais que atuam na área: um salão sustentável.

Ainda em pouca quantidade no Brasil, esses salões amigos do meio ambiente estão enviando para reciclagem tubos de coloração, vidros de esmaltes e até mesmo tufos de cabelos que ficam espalhados pelo chão.

Quem já aderiu ao movimento foi um espaço localizado na Vila Leopoldina, zona Oeste de São Paulo. Dentro de um prédio comercial, “O Salão” é um negócio fundado pelo cabeleireiro Douglas Lima. Com 20 anos de carreira no ramo de cortes de cabelo, ele passou pelos salões mais renomados de São Paulo, mas sempre sonhou em abrir seu próprio negócio para começar a comprar marcas de beleza nas quais acreditava e que levantassem a bandeira do meio ambiente.

O novo negócio de Douglas, diferentemente das grandes redes em que trabalhou, é menor e mais privativo, mas em contrapartida o cabeleireiro conseguiu o que queria: adquirir produtos em que confia e opta por aqueles que possuem na composição óleo vegetal, composto que ao ser extraído pode garantir que a natureza não foi agredida. “Também evitamos marcas que testam em animais”, diz Douglas.

O profissional também incentivou os funcionários do salão a espremerem até a última gota dos produtos e cortarem ao meio as embalagens quando acabam. Compraram até um espremedor para essa prática. Esgotados, os itens vão para a coleta seletiva que fica dentro do estabelecimento.  

Os tubos de coloração de tintura que são feitos de alumínio são armazenados em um recipiente à parte. Eles são recolhidos pelo Beleza Verde, um programa criado há dois anos pela Dinâmica Ambiental, empresa de reciclagem. A ação tem o objetivo de destinar corretamente os resíduos gerados em salões de beleza e clínicas de estéticas. “Os lixos desses locais não devem ser jogados em lixeiras comuns, pois possuem líquidos químicos e precisam de um tratamento especial”, conta Márcio Mattana, que recolhe os resíduos produzidos no salão e é o coordenador da iniciativa.

Só em 2018, o programa Beleza Verde recolheu mais de 17 mil tubos de coloração dos salões que contratam seus serviços. Os itens são encaminhados para a Dinâmica Ambiental que os descontaminam, limpam e disponibilizam os objetos para as cooperativas. O material que é feito esse produto, o alumínio, é o mais valorizado entre os catadores devido ao alto valor de compra nas companhias recicladoras.

Para garantir que os resíduos tenham um destino correto, os salões de beleza precisam desembolsar em média cerca de 600 reais para o programa. Aproximadamente 30 estabelecimentos assinaram contrato com o Beleza Verde e estão no caminho para a sustentabilidade, de acordo com Márcio Mattana.

Um dos primeiros clientes do programa é o salão “Na Bahia”, localizado no bairro de Higienópolis. A empresa familiar é administrada pela filha da dona, Ruchelle Crepaldi. 

Ruchelle e as sócias levantaram a bandeira da sustentabilidade dentro da empresa. Como já fazia a coleta seletiva há muito tempo dentro de casa, decidiu que esse conceito também seria realidade dentro do salão. “Comecei a pensar em ações para disseminar a educação ambiental dentro do espaço criando alternativas”.

O primeiro passo da administradora foi entrar em contato com uma cooperativa para que recolhessem os materiais gerados no salão. Depois de um tempo, instalou quatro cisternas de 1050 litros para armazenar água de chuva e utilizá-la para limpeza. Uma delas é ligada a um jardim vertical que recebe a rega regularmente. Além disso, Ruchelle instalou um ecoponto com coletor para cada tipo de material: plástico, vidro, metal e até mesmo peças de computadores. “Nosso espaço é grande, temos a oportunidade de implantar algumas práticas criativas”, conta.

No local, Ruchelle também instalou um minhocário, método de fermentação dos alimentos (geralmente hortifrútis) que viram adubo graças ao trabalho das minhocas (saiba mais aqui). Recentemente, a mais nova aquisição do salão foi uma composteira automática que recebe qualquer tipo de refeição, até mesmo ossos pequenos de carnes e papel de coador de café.

Para os resíduos típicos do salão, como tubos de coloração, shampoos, condicionadores esmaltes e até mesmo cabelos espalhados pelo chão, a gestora chamou o Beleza Verde para destiná-los corretamente.

A grande quantidade de esmaltes preocupava Ruchelle e com razão. Só em 2018, o programa Beleza Verde recolheu mais de 7 mil vidros de esmaltes em todos os salões credenciados. Só o “Na Bahia” gerou 323 unidades. Ao receber os vidros, a empresa recicladora, que trata esses tipos de cosméticos, a Dinâmica Ambiental, limpa a embalagem e envia o vidro para cooperativas de reciclagem do material.

Já o líquido que sobra do esmalte é retirado o solvente. Esse composto é reciclado e pode virar tinta para pintar objetos metálicos, como portões, maçanetas de portas e outros itens.

“Não só descartamos nossos próprios produtos, mas como também recebemos os dos clientes que trazem de fora”, conta.

A última novidade no salão é que eles começaram a separar os tufos de cabelo que ficam pelo chão, resultado dos cortes. Com os fios, o Beleza Verde desenvolverá um projeto piloto para produzir uma esponja que servirá de apetrecho para segurar o petróleo que vaza acidentalmente no mar. “Os cabelos contêm uma substância que suga o óleo e não deixa ele se alastrar na água”, explica Mattana.

Só no ano passado, o programa recebeu mais de 75 quilos de cabelo. O executivo faz questão de frisar que os restos capilares que recebe e são enviados para reciclagem não são utilizados para fazer perucas, comumente doados para instituições que tratam pessoas com câncer. “Para essa finalidade, o tipo de cabelo é outro. Geralmente, são pessoas que cortam um longo comprimento no salão e o estabelecimento já tem vínculo com as entidades que recebem”, reitera Márcio Mattana.

Serviço

Na Bahia

Rua Bahia, 778, Higienópolis

Telefone: (11) 3662-1774

 

O Salão

Avenida Imperatriz Leopoldina, 1248

Telefone: (11) 98859-5905

 

Texto produzido em 10/03/2020

Tags: matérias
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