Conheça a Cooper Parelheiros

Foto: Thiago Mucci

Cooper Parelheiros faz reciclagem em área rural

25/07/2018

Imagem - Foto: Thiago Mucci

Foto: Thiago Mucci

A Cooperativa de Reciclagem Parelheiros está a menos de 500 metros do Rodoanel, mas apesar do intenso trânsito que se pode observar de seu galpão é uma entidade que atua dentro de uma chácara localizada numa via erma em plena zona rural de São Paulo.

Sim, a capital conta com uma área rural que congrega cerca de 140 mil habitantes nos distritos de Parelheiros e Marsilac. Esta faixa da cidade, que corresponde a quase 24% do território paulistano, é atendida pela Cooper Parelheiros, uma das cooperativas mais recentes da cidade. A instituição é a única a atender uma região considerada um dos pontos mais importantes da Grande São Paulo em termos ambientais.

“Temos aqui 23 nascentes”, explica o presidente da entidade, José Pereira da Silva Filho, um ex-motorista de caminhão de coleta de lixo que, após se aposentar, descobriu no cooperativismo um novo trabalho e uma paixão.

“É por isso que a reciclagem aqui precisa ser muito bem-feita para proteger o meio ambiente.”

A região contempla três bacias hidrográficas: a Capivari, a Guarapiranga e a Billings, que fornecem água para cerca de 25% da população da região Metropolitana. Água que, se poluída com materiais não-reciclados, demandará investimentos da Sabesp para ser tratada antes de ser distribuída.

A proximidade visual com o Rodoanel não significa facilidade. Pereira explica que, por questões ambientais, não há acesso da rodovia ao bairro, que mais se parece com uma cidade do interior. A entidade fica situada em um sítio ladeado por outros imóveis rurais, não possui esteira mecanizada para auxiliar na separação dos materiais e conta com apenas uma prensa hidráulica para dispor os resíduos reaproveitáveis em fardos. É um modelo antigo, ainda feito em madeira, mas que funciona perfeitamente.

A falta de infraestrutura e o acesso remoto (cerca de 34 quilômetros do centro da capital) não impede que os 13 cooperados – poucos em comparação com outras associações visitadas pelo Recicla Sampa – processem e vendam cerca de 40 toneladas mensais. Ao final do mês, é garantida uma renda que varia entre R$ 850,00 e um salário mínimo (R$ 974,00), um valor considerado baixo por Pereira.

É preciso integração

Aos 61 anos, natural de Guaíra (PR), Pereira não é um homem de fazer reclamações, mas considera que falta juntar algumas pontas na política que envolvem a cadeia de logística reversa. Ele diz que o poder público e as indústrias, responsáveis pela produção dos recicláveis consumidos e descartados pela população, deveriam rever responsabilidades para investir na infraestrutura das cooperativas.

Sem ter expertise em legislação, ele mira os acordos setoriais, feitos a partir da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Eles preveem compensações em alguns setores, que nem sequer foram finalizados, como no caso da reciclagem de eletroeletrônicos. “Algumas indústrias vieram até aqui, mas os investimentos não chegaram”, diz.

E a questão não termina aí. Certos produtos, como o isopor e frascos de leite com plásticos, cujo revestimento interno é feito com lâminas de alumínio, não têm revenda. “As indústrias deveriam ser responsáveis e pagar por este material.”

Pereira também diz que “não quer investimentos de graça e que as cooperativas têm que mostrar resultados”.

Imagem - José Pereira da Silva Filho, presidente da Cooper Parelheiros. Foto: Thiago Mucci

José Pereira da Silva Filho, presidente da Cooper Parelheiros. Foto: Thiago Mucci

O início

Descartando o fato de estar numa região atípica e pouco conhecida dos paulistanos, a Cooper Parelheiros começou de maneira inusitada. “Eu trabalhava na Ecourbis e minha esposa começou a usar o quintal de casa para reciclar latinha.”

Era 2011. O negócio feito para complementar a renda do casal, logo viraria um ferro-velho, num terreno alugado. “Depois, precisamos de um terreno maior, mas éramos informais”, diz.

Após dois anos, a Ecourbis, concessionária de coleta que atua na zona Sul na cidade, precisava de mais áreas para processar os recicláveis e soube que o motorista Pereira tinha o terreno em Parelheiros. “Eles me pediram para abrir uma empresa e tudo começou, com uma licença da Amlurb (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana). ”

Nesta época, a associação era uma microempresa que chegou a ter 15 colaboradores. Além dos caminhões da Ecourbis, a empresa recebia também materiais excedentes da Coopercaps, instituição localizada na Capela do Socorro. “Éramos um núcleo avançado deles.”

A transformação em cooperativa se deu após um acordo com a Prefeitura, conforme estipula a Política Nacional de Resíduos Sólidos, em que as cooperativas têm prioridade em obter materiais da coleta seletiva, uma vez que exercem função social como geradores de renda.

“De fato, a gente emprega aqui pessoas que não teriam como trabalhar em outro lugar”, explica Pereira, repetindo uma história comum à quase totalidade das cooperativas visitadas pelo Recicla Sampa.

Uma delas é Regiane Barbosa Ananias, de 48 anos. Há 9 anos, ela deixou o sertão da Paraíba. “Deu uma seca brava e começamos a passar fome.” Ela casou-se com um senhor de Parelheiros (já falecido) com quem teve um filho. Regiane, que vivia de faxinas e bicos, acabou aderindo à cooperativa.

“Aqui é melhor porque o dinheiro é certo no final do mês.”

Enquanto separa o lixo, Regiane fala pouco. Pereira conta que, ao final do mês, no dia do pagamento, o filho vai à cooperativa conferir para a mãe os apontamentos de horas trabalhadas. Regiane é analfabeta e depende de terceiros para algumas tarefas que demandam leitura, mas deseja aprender a ler e a escrever.  Uma funcionária muito elogiada por Pereira. “É de uma competência e de uma honestidade a toda prova.”

A Cooper Parelheiros fica na Rua Henrique Hessel, 451 – Parelheiros

Telefone: (11) 5920-2748

Materiais reciclados: papel, plásticos (todos), vidros, metais comuns e papelão.

Tags: entrevistas, reportagens
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