Com livros recolhidos do lixo, coletor quer montar biblioteca em Sorocaba

18/09/2020

Imagem - Luciano Ferreira de Lima e os livros que coletou durante o trabalho. Foto: Arquivo pessoal

Luciano Ferreira de Lima e os livros que coletou durante o trabalho. Foto: Arquivo pessoal

Faz três anos que o coletor de resíduos Luciano Ferreira de Lima atua como profissional da limpeza em Sorocaba, no interior de São Paulo. Durante esse tempo, o trabalhador tem achado pelas ruas nada menos do que livros descartados pelos moradores da cidade.

“Para mim, livros são como uma mina de ouro. Não acreditei quando vi que eles estavam no lixo. Resolvi coletar todos e levar para a casa”, disse Luciano.

Criado em um bairro perigoso de Sorocaba, Luciano conta que aos 11 anos já estava pelas ruas, se envolvendo com atividades ilícitas. Foi detido e seguiu para a Fundação Casa. Foi um período difícil e ao sair decidiu fazer um supletivo para concluir os estudos.

Na escola, encontrou uma professora que foi um anjo em sua vida.

“Ela viu o meu esforço, pois eu caminhava sete quilômetros, na ida e na volta para estudar. Eu disse para ela que queria aprender mais e falar melhor, conhecer mais palavras. Então, ela me orientou dizendo que eu me desenvolveria mais se eu começasse a ler bastante. Foi assim que surgiu meu interesse por livros”, conta.  

Depois que se formou no ensino médio, Luciano abriu o próprio negócio, mas a crise financeira no país fez com que fechasse a loja anos depois. Decidiu ser coletor e desde o início do seu trabalho, recolheu mais de 350 livros, que estão guardados em casa. Ele conta que a família e ele já leram boa parte do que o trabalhador encontrou e fala com orgulho que se sente satisfeito quando vê os dois filhos se interessando pela leitura.

Inspirados pelo movimento de Luciano, seus colegas também passaram a recolher os livros descartados. Em conjunto, eles conseguiram formar uma biblioteca dentro da empresa de coleta de resíduos de Sorocaba. “Foram muitos anos coletando livros. Já cheguei a coletar de 25 a 30 por mês”.

Imagem - Luciano possui um acervo pessoal em casa. Foto: Arquivo pessoal

Luciano possui um acervo pessoal em casa. Foto: Arquivo pessoal

A coleta fez com que o profissional reunisse uma vasta e diversificada coleção literária dentro de casa, como conteúdos sobre direito civil, livros de Machado de Assis, George Orwell, além de clássicos da literatura russa.

A intenção de Luciano é abrir uma biblioteca comunitária em um bairro carente de Sorocaba chamado Ana Paula Eleutério. “Quero levar essa iniciativa até essa comunidade, pois também cresci num bairro assim e pretendo incentivar o hábito da leitura entre os moradores. Os livros podem salvar vidas e ajudar na nossa formação”.

Atualmente, além do trabalho, o profissional cursa história por meio de ensino a distância (EAD). Como a vida de coletor é muito agitada, pois precisa acordar muito cedo para estar nas ruas, Luciano conta que tem tempo de estudar quando o caminhão de coleta vai até o transbordo descarregar os resíduos no fosso. “Esse tempo no transbordo demora uma meia hora, é o tempo que eu tenho para ler as apostilas e estudar. Quem sabe um dia, eu ainda consiga ser professor de história”, conclui.

Texto produzido em 25/08/2020

Tags: matérias
Espalhe essa informação

Assuntos Relacionados