Reciclagem de pneus

Item é considerado um material difícil de se eliminar. Foto: Imthaz Ahamed / Unsplash

Saiba por que você é corresponsável pela reciclagem de pneus no Brasil

22/09/2020

O brasileiro é apaixonado por carros. Em 2019, foram revendidos cerca de 14,5 milhões veículos no país de acordo com a Federação das Revendedoras (Fenauto). Com isso, aproximadamente 59,4 milhões de unidades de pneus foram comercializadas, sendo que mais de 33 milhões representam os de passeio, segundo a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP).

Esses números evidenciam a grande quantidade de pneus que precisam ser descartados durante a vida útil de um carro e o tamanho do nosso problema ambiental.  Para se ter uma ideia, a durabilidade de um veículo pode ser medida pela quilometragem e, em alguns países, ela chega a 350 a 450 mil quilômetros. “Geralmente, a cada 50 mil km rodados é preciso trocar os seus quatro pneus, ou pelo menos os dois dianteiros”, conta o mecânico Jeferson Santos. Levando isso em consideração, um automóvel que tenha cerca de 500 mil km, deverá descartar em torno de 40 pneus em média.

Mas, afinal, por que o pneu é um grande vilão? Embora sua composição não tenha metais pesados, não seja solúvel em água e não tenha lixiviação (carregamento de materiais ao lençol freático pela água da chuva), o produto é considerado um resíduo de difícil eliminação. Isso porque ele não é biodegradável e, se for queimado, libera uma fumaça com alguns tipos de poluentes prejudiciais à qualidade do ar, como carbono e enxofre.

E, quando acumulado em grande volume e descartado incorretamente, em qualquer lugar, pode poluir córregos e rios ou servir de criadouros para mosquitos transmissores de doenças, como o Aedes Aegyptique causa a dengue.

Imagem - Geralmente, a cada 50 mil km rodados é preciso trocar os quatro pneus, ou pelo menos os dois dianteiros. Foto: Peoplecreations / Freepik

Geralmente, a cada 50 mil km rodados é preciso trocar os quatro pneus, ou pelo menos os dois dianteiros. Foto: Peoplecreations / Freepik

“Nas obras de manutenção da calha do Rio Tietê são retirados, em média por ano, quase 10 mil pneus inservíveis”, conta Carlos Alberto Ferreira Lagarinhos, especialista da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo), engenheiro mecânico e mestre em Tecnologia Ambiental pelo Instituto de Pesquisa Tecnológicas (IPT) e doutor em Ciências.

Destinar corretamente é lei

Pneus inservíveis são aqueles cuja vida útil terminou e que precisam ser descartados em um ambiente correto de modo que não cause um desequilíbrio ambiental. Desde agosto de 1999, foi aprovada a “Resolução Conama” (Conselho Nacional do Meio Ambiente), que estabelece leis e metas e obriga os fabricantes e importadores a darem uma destinação final adequada aos pneus que não servem mais para uso.  

Já em 2012, outra resolução proibiu a importação de pneus usados para qualquer fim. O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) é o responsável pelo controle, fiscalização e implementação das resoluções do Conama.

Além disso, o órgão estabelece metas de destinação correta a todas as empresas, fabricantes ou importadores. Funciona da seguinte maneira: a cada pneu novo comercializado para o mercado, as companhias deverão destinar adequadamente um inservível.

Os fabricantes de pneus novos, considerando dados declarados em 2018, alcançaram 104,83% da meta de destinação de pneumáticos (os pneus também são conhecidos por esse nome técnico), de acordo com documento de informações sobre pneus do Ibama, o “Relatório Pneumáticos 2019”.

Para se ter um maior controle, em 2010, o Ibama instituiu a produção desse relatório anualmente, onde fabricantes e importadores de pneus novos, assim como empresas que destinam corretamente os inservíveis, devem fornecer informações como: unidades produzidas, importadas e exportadas.

Os últimos dados do material publicado em 2019 mostram que no país mais de 821 mil toneladas de pneus novos foram colocados no mercado no ano de 2018. Isso quer dizer que mais de 59 milhões de novas unidades foram adquiridas no ano. Vale destacar que as leis da Resolução Conama informam que distribuidores, reformadores e consumidores finais são corresponsáveis pela coleta dos pneus depois de usados.

“Um ponto muito importante é a participação do consumidor, que se beneficiou com a utilização dos pneus durante a vida útil do produto e, no final, deve descartar de forma adequada, seja nos pontos de coleta, nas lojas de revenda ou quando houver a troca por pneus novos. Os pneus inservíveis devem ser descartados nos ecopontos, e não nos rios, ruas, praças, entre outros”, orienta Carlos Lagarinhos, especialista da Escola Politécnica da USP.

Para ajudar nessa corresponsabilidade, o Ibama produziu um outro relatório em 2019, onde aponta os pontos de coleta de pneus inservíveis espalhados por todo o Brasil. Acesse aqui.

RECICLANIP

Para otimizar o trabalho de logística, coleta e reciclagem de pneus inservíveis, a ANIP criou, em 1999, a Reciclanip, iniciativa que desempenha um papel importante na destinação correta desses materiais no Brasil.

“Desde então, nos consolidamos como a maior operação de logística reversa de pneus da América Latina e um dos maiores do mundo, superando ano após ano as metas de destinação do Ibama. Diariamente, cerca de 90 caminhões retiram aproximadamente 1.200 toneladas de pneus inservíveis dos pontos de coleta por todo o Brasil”, diz Klaus Curt Müller, presidente-executivo da ANIP.

De acordo com o executivo, a ação reforça o comprometimento da indústria brasileira de pneus com as questões ambientais, principalmente ao estabelecer condições que permitam o desenvolvimento sustentável do país, valorizando a preservação da natureza e o bem-estar da população.

“Este é um processo amplo e exemplar em meio às outras políticas ambientais. Nesse sentido, é fundamental que todos os atores da sociedade compreendam a importância de seus papéis em cada etapa da destinação e que participem ativamente delas. Hoje, este é um dos principais desafios que temos pela frente. O trabalho em conjunto é o que garante um futuro mais sustentável”, explica.

A Reciclanip possui mais de mil pontos de coletas espalhados por todo país. No site da entidade, é possível encontrar o endereço de cada um. “Só em 2019, foram destinadas adequadamente cerca de 471 mil toneladas de pneus inservíveis, o equivalente a 50 milhões de pneus de passeio”.

É obrigatório que fabricantes e importadores destinem adequadamente os pneus que não servem mais para uso. Foto: Jcomp / Freepik

Reciclagem de pneus: técnicas utilizadas

Existem diversas maneiras de destinação e reciclagem correta desse tipo de material no Brasil. Segundo o “Relatório de Pneumáticos 2019” do Ibama, as tecnologias de destinação ambientalmente adequadas mais usadas pelas empresas em 2018 foram:

  • Coprocessamento: utilização dos pneus inservíveis em fornos de clínquer (fornos para produção de cimento) como substituto parcial de combustíveis e fonte de elementos metálicos;
  • Laminação: processo que corta o pneu em lâminas para a fabricação de artefatos de borracha, como solas de sapato e outros itens;
  • Granulação: processo industrial de fabricação de borracha moída, em diferente granulometria, com separação e aproveitamento do aço (da calota);
     
  • Pirólise: processo de decomposição térmica da borracha conduzido na ausência de oxigênio ou em condições em que a concentração de oxigênio é suficientemente baixa para não causar combustão, para geração de óleos e aço.  

Os dados também revelam que, em 2018, o coprocessamento em fornos rotativos para produção do clínquer é a principal tecnologia utilizada no país. No total, 33 empresas cimenteiras declararam esse tipo de destinação ao órgão ambiental, o que representou 57,64% do total de pneumáticos destinados. Em segundo lugar, permanece a granulação, com 23,84%, enquanto a laminação representa 16,88% e a pirólise, 1,64%.

De acordo com o especialista no assunto, Carlos Largarinhos, os pneus inservíveis devem ser enviados para empresas que realizam a etapa de pré-tratamento, ou seja, separação do aço, fibras têxteis e granulação da borracha. Nesses locais, o aço (da calota) é vendido para as usinas que fazem a reciclagem. “As fibras têxteis podem ser enviadas para empresas que fazem embalagens”.

O granulado de borracha pode ser utilizado em várias aplicações pelas fabricantes de produtos técnicos de borracha. O pó de borracha pode ser usado para a fabricação de tapetes automotivos, asfalto-borracha, etc. Outros materiais do produto podem ser coprocessados na indústria de cimento, de acordo com Lagarinhos.

O acadêmico também defende a reutilização dos pneus, pois eles podem ser usados na construção de playgrounds, em estacionamentos como proteção para postes, entre outros. “Porém, a reutilização não é regulamentada pelo Ibama como uma atividade de reciclagem”, enfatiza.

Quem recicla?

Hoje, no Brasil, existem cerca de 69 empresas que realizam o processo de reciclagem do pneu (coprocessamento, laminação, granulação e pirólise). Entre elas está a UTEP (Usina de Tratamento Ecológicos de Pneus), que possui unidades em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, e em Mairinque, no interior do estado.

Criada em 2002, a recicladora coleta, tritura (ela faz o processo de granulação) e recicla os pneus inservíveis. A empresa conta com tecnologia e equipamentos italianos para realizar a atividade.

“Os trituradores que utilizamos transformam o pneu em um granulado. Ele passa várias vezes nas máquinas de trituração e, a partir daí, solta todo o aço que será enviado para o reaproveitamento em indústrias siderúrgicas. Já o nylon, que também faz parte da composição do produto, é usado em caixas de papelão. Pode reparar que papelões reforçados possuem uns pequenos fios”, explica Oscar Souza, coordenador da UTEP.

Os granulados são usados para compor quadras esportivas e alguns objetos, como sola de sapato, vasos de plantas, entre outros. Na recicladora, também são feitos chips ou lascas de pneus que são usados no coprocessamento em fornos de cimenteiras.

De acordo com Oscar, cerca de 50 toneladas de pneus são tratadas por dia na UTEP. Dentre seus clientes que destinam diariamente o produto para a recicladora estão borracharias, centros automotivos, coletoras de resíduos, concessionárias de veículos, construtoras, fábricas, importadoras de automóveis, mineradoras, Prefeituras, etc.

Queimar não é a solução

É difícil encontrar ONGs que levantem a bandeira especificamente do reaproveitamento de pneus pelo país. Porém, na Praia Grande, Baixada Santista, existe a Ecophalt. “Significa Eco de ecologia e Phalt de asfalto”, explica Syllis Flávia Paes Bezerra, presidente da entidade, membro da Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental do Estado de São Paulo (CIEA-SP) e do Comitê de Bacias Hidrográficas da Baixada Santista (CBH-BS).

A história de Syllis com a ONG começou em um curso técnico de logística, como um trabalho acadêmico. Seus colegas de classe e ela começaram a pesquisar sobre capa asfáltica feita com reaproveitamento de pneus. Para dar mais voz ao projeto, uma professora incentivou o grupo a abrir uma ONG para disseminar e concretizar a ideia que estava surgindo em sala de aula.

“Vimos que não é preciso queimar o pneu para reaproveitar, é possível fazer asfalto com muita qualidade”, conta.

A iniciativa foi registrada e certificada oficialmente na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, reforçando o caráter inovador do projeto. Após alguns anos, a ideia da ambientalista foi colocada em prática na cidade de São José dos Campos, na região do Vale do Paraíba, interior de São Paulo. “Um político me convidou para orientar a ação e conseguimos colocar 8,6 quilômetros de asfalto ecológico na cidade”.

O asfalto ecológico é considerado uma boa opção para relacionar o desenvolvimento urbano com a preservação do meio ambiente. Ele é feito por meio da incorporação da borracha moída de pneus inservíveis ao cimento asfáltico.  Além disso, a ambientalista conta que a cidade também colocou encanamentos feitos de pneus no saneamento.

A Ecophalt é ainda bastante atuante na Baixada Santista. Com a ajuda da ONG, o município conseguiu instalar três ecopontos para recebimento de pneus. “Fui na Câmara de Vereadores da cidade e mostrei que eram gerados cerca de 8 mil resíduos de pneus por mês e apenas 13% tinham uma coleta correta. Isso pode ter sido o pontapé para a criação dos Pontos de Entrega Voluntária na região”, disse.

A ONG também mantém um programa de educação ambiental em escolas, onde é mostrado para as crianças a importância da reciclagem de pneus e de outros resíduos sólidos. Como atividade lúdica, os alunos montam floreiras, bancos, caminhos de bosques e outras artes com os pneus. “É um material muito rico, dá para fazer diversos tipos de reaproveitamento com ele. Queimar não é a solução”, conclui Syllis.

E você, como pode descartar?

Recauchutar em uma oficina ou doar para empresas que irão reutilizar os pneus são boas opções para os pneus usados. Também há artesãos e artistas que precisam do material para construir móveis, jardins e outros itens.

Caso você não conheça empresas ou artistas, saiba que a responsabilidade de coletar o seu pneu é do fabricante, de acordo com a lei brasileira, então cabe a ele dispor de recursos e infraestrutura para o recolhimento.

Você pode entrar em contato com a empresa ou o local onde adquiriu o pneu. Lá eles indicarão um ponto de entrega. Lembre-se que, por lei, o consumidor faz parte dessa cadeia de produção e é considerado o corresponsável por devolver o produto usado.

Você também pode encontrar locais de descarte no site da Reciclanip.

Texto produzido em 07/08/2020

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